Wrong Box é uma viagem para tempos inocentes de internet

Não lembro onde eu estava em 2003. Na verdade, minha memória nunca ajudou muito e recordo de quase nada da minha vida. Mas o que resta de minhas lembranças dessa época em específico, está relacionado a diversas horas surfando na rede mundial de computadores.

Existe algum muito peculiar sobre o visual do começo da internet, possui uma breguice única e única, dá para saber exatamente de onde veio só olhando, chegou ao status de estética.

É o que o vaporwave faz de certa maneira mas seu apelo é em parte calcado em elementos oitentistas, lo-fi e no fascínio com a cultura japonesa. Enquanto estética, é mais referencial e respeitosa, como se gritasse o quão legal foi essa época .

Mas quando vejo que um gif escrito “me chama no MySpace” dentro da plataforma do Instagram, sinto que é um nível diferente de referência e apropriação, como se existisse um leve deboche feito com carinho. E isso remete ao jeito que lidamos com ironia, como reclamar que seus pais falam “zap” e depois criar mais corruptelas como “patati passazap”, utilizando de forma não irônica.


Essa maneira na qual a ironia é subvertida tem entrado um pouco em projetos artísticos, basta olhar no trabalho da Molly Soda e do Aquma, onde o foco é primariamente no humor. É uma mistura da cultura do memes sob uma ótica quase dadaísta, onde não fazer sentido é objetivo.

Wrong Box, jogo desenvolvido pela dupla, é o resultado da junção das sensibilidades de cada um e embora seja possível perceber uma leve ironia, o respeito pela estética aplicada está bem pontuado.

Acordamos em um quarto repleto de pôsteres pixelados de bandas, seriados, garotos sensuais e capas de revistas teen, tem um all star preto no chão, caixas de mudança com um iPod de primeira geração, braceletes de miçangas escrito ROFL e SK8R, revistas de comportamento espalhadas. É um quarto bem fiel de uma adolescente de meados de 2000, especialmente pelo diário que você pode interagir e ler sobre o dia legal que o garoto bonito da sala olhou diferente pra ti.

Wrong Box é um museu interativo de uma época inocente da internet recheado de gifs coloridos

Tem um computador no canto e ao ligá-lo somos transportados para dentro de um universo digital que é impactante, nostálgico e brega. São dezenas de gifs, imagens, emoticons, um batom tridimensional giratório, corações, basicamente um furacão que representa muito bem como era o visual da internet rudimentar. Simplesmente hipnotizante, dá passar horas só olhando cada um dos elementos soltos e lembrar do quão brega era tudo isso e tava tudo bem, como se estivéssemos vivendo na materialização daqueles powerpoints do smilinguido recheado de WordArt.

Inicialmente não existe aqui um objetivo concreto, claro que em pouco minutos você recebe a tarefa de coletar três CDs para completar a mixtape de um personagem. Para isso, você precisa explorar três mundo distintos em busca dos itens.

Wrong Box é quase uma máquina do tempo, um museu interativo de espaços virtuais que caíram no esquecimento. Muito do que ele acerta enquanto experiência, se baseia na surpresa em como ele apresenta sua estética, então fica complicado continuar escrevendo sobre.

Um exemplo chave dessa maluquice é um cenário repleto de imagens de fadas e com capturas de um fórum sobre a sua existência contendo diversos relatos de encontro com esses seres místicos. É a materialização da própria descrição do jogo, uma reimaginação de como era surfar na web enquanto adolescente e como é acessar esses espaços hoje.

Outras gerações têm dificuldade de entender o humor millenial, nada parece ter sentido ou graça e com os memes, criamos camadas de contextos apenas pela piada. Principalmente se algum tipo de ironia estiver envolvido, colocar a pochete de volta no catálogo de moda é um exemplo tanto que não é mais algo brega. O que Wrong Box faz é celebrar a estética espalhafatosa pelo o que é e querendo ou não, as imagens que traz de alguma forma aquecem o coração por que estão atreladas a um sentimento bom.

A adolescência é terrível para muita gente, mas a inocência que carregamos da infância ainda está lá e quando voltamos atrás, lendo nossas postagens no Orkut sentimos vergonha e saudade de uma época mais simples.

Essa experiência curtinha, de revisitar diversas camadas da internet é nostálgica mas não se baseia apenas nela. Nostalgia pode ser um perigo e sinto que Molly e Aquma percebem isso. Existe uma curadoria e cuidado nos cenários que montaram, isso mantendo uma camada de humor. sem perder o humor.

Tudo aqui bate naquilo que procuro no entretenimento então é difícil odiar, mas é bastante atual e relevante, referência o passado para colocá-lo em outro contexto. Muito mais do que um jogo, uma experiência, Wrong Box é uma janela para uma época que não deveríamos esquecer, mas abraçá-la como parte da nossa história.

Wrong Box está disponível no itch.io por 9 dólares.