Weedcraft Inc fuma, mas não traga

Nunca confie em mim com nada importante ou complexo demais, principalmente se for para manter um império de venda de drogas bem debaixo do nariz da polícia. Quando descolo precioso tempo para me dedicar ao lazer, quero deixar desplugadas as pressões e chatices que me perseguem no dia a dia. Nas minhas quase três décadas de experiência com videojogos, desenvolvi (junto com certa carga de sedentarismo) uma aversão a jogos que mais pareçam ferramentas de um escritório de contabilidade.

Isso não implica, de forma alguma, que eu rejeite a complexidade nos joguinhos – o que seria limitado e estúpido. Na verdade, maioria dos títulos que mais me chamam a atenção gravitam entre o denso e o denso-e-meio. A palavra aqui é ambiência: enquanto Return of the Obra Dinn (2018) me fez revirar notas em busca do mistério por trás do desaparecimento de uma tripulação, Weedcraft Inc me passou pouco mais que a emoção de simular um bibliotecário japonês. E olha que é no primeiro exemplo que você vive um analista de apólices de seguro.

Distribuído pela Devolver Digital (que vem abarrotando o mercado de queridinhos indie), o jogo lançado no início de abril tem uma premissa irresistível: misturando os gêneros de simulação e estratégia, você toca um negócio baseado no plantio e distribuição de cannabis. Isso mesmo, maconha. Brenfa, erva do Bob, baguio. A coisa começa pequena, quase como uma startup de ganja, e pode crescer até você virar o Eike Batista do baseado. E eu juro que acabam aqui os sinônimos para maconha. Beck. Fumo. Cigarrinho de artista. Ok, agora parei.

No cenário de introdução do jogo, joguei como um estudante que abandona um MBA e retorna à cidade natal após o pai morrer de câncer. Na volta, descobri do meu irmão que, antes de morrer, o finado vinha mantendo o tratamento por meio de um negocinho “extra” por baixo dos panos. E é aí que, usando da minha experiência acadêmica, resolvi dar sequência ao esquema familiar. Poderia ser o enredo de uma adaptação de Breaking Bad encomendada pelo Sílvio Santos, mas Weedcraft Inc compensa levando muito a sério o que faz.

E quando falei em plantio e distribuição, eu quis dizer plantio e distribuição mesmo. Em Weedcraft, você não gerencia só a comercialização da droga, mas também sua equipe de funcionários (entre plantadores, vendedores e transportadores), o mercado de cannabis e dezenas de outras mecânicas. O nível de detalhe é absurdo: tal hora, você é obrigado a analisar até humidade, temperatura e quantidade de nitrogênio do solo adequadas para cada tipo de semente de maconha. Os caras claramente estudaram a fundo a coisa.

O jogo vai te introduzindo mecânicas aos poucos, após missões focadas em alguma nova habilidade. No começo, por exemplo, você só toma conta de uma plantação de cannabis, aguando e aparando cada mudinha (o que envolve clicar e segurar botões sobre a planta). Após algumas colheitas, pode passar a vender o produto em algumas áreas da cidade e expandir suas frentes de negócio. Quando a polícia aparece, surgem necessidades como a de criar negócios de fachada ou comprar um ventilador melhor que disfarce o cheiro do plantio.

No comércio, a ideia é desenvolver produtos para conquistar cada uma das várias “tribos” da cidade, quase sempre estereótipos clássicos de seriados americanos: mendigos fumam qualquer coisa barata, esportistas querem algo mais descolado, hipsters querem se sentir em uma maconharia gourmet, etc. Inicialmente, você possui só uma espécie de cannabis, mas pode ir desenvolvendo – ou comprando/roubando da competição – outros tipos de sementes com nomes maneiros tipo “Super Lemon Haze” e “True OG”.

Com o tempo, vão abrindo estados no mapa onde a maconha já é legalizada, e aí você deve decidir se torna legítimo seu negócio (o que gera mais impostos) ou segue na clandestinidade. Na minha primeira campanha, mirei no segmento funk ostentação, criando cuidadosamente o blend mais perfeito e puro de maconha que o mundo já viu e cobrando o olho da cara dos gordinhos do outift dispostos a encarar a conta. Deu certo até as áreas frequentadas pelos ricos ficar visada pela polícia. Aí eu quebrei. Taí uma lição, jovens: diversidade é a chave.

A ideia é interessante e o jogo flui bem, com uma atmosfera bem humorada e um enredo surpreendentemente bem escrito que explora legal a riqueza do tema. O grande problema é que, na gana por destrinchar o mundo canábico, Weedcraft Inc não sabe quando parar e se perde de forma constrangedora. Com mais de vinte horas de gameplay, o jogo ainda continua introduzindo novas mecânicas para mim, muitas delas tediosas feito o diabo  – para se ter noção, até entrevistas de emprego com novos funcionários é você quem conduz.


No final, a sensação foi de estar jogando um tutorial interminável, que não me deixava explorar as mecânicas de forma plena e satisfatória. Nas dezenas de horas que investi aqui, os únicos momentos em que tive uma experiência mais “minha” foi quando decidi deliberadamente ignorar as missões e tirar uma onda pela cidade. Mas, até nessas horas, era difícil evitar a sensação de estagnação, como se o jogo me esfregasse na cara toda hora que eu deveria estar abrindo novos conteúdos. “Como assim, se divertindo? Há sementes de limão para abrir”.

Não existem regras claras que expliquem quando um jogo mais complexo funciona ou não, e tentar reduzir isso a uma fórmula fechada seria só engabelar o leitor. É algo que você apenas sente: os textões do codex de Mass Effect (2007) enriqueciam e expandiam a trama, as intermináveis tabelas de Europa Universalis IV (2013) faziam você realmente se sentir a cabeça por trás de uma grande nação. Agora, não basta colocar o jogador na pele de um guerreiro, se ele for só um daqueles guardinhas que não se mexem do Palácio de Buckingham.

O negócio é que, salvo se você for um grande entusiasta da maconha ou quiser abrir sua própria plantação (não faça isso no Brasil, sério), a maioria das mecânicas aqui fica entediante rápido. Coletar plantas “prontas”, por exemplo, exige que você vá até o local do plantio para clicar em cada muda. Não ajuda o fato de que, para ir das telas de plantio e venda, o jogo precisa de um load toda vez. Você pode até contratar gente para automatizar a coisa, mas aí vai precisar entrevistar funcionários e manter conversas regulares com eles para evitar traições.

Dá para reconhecer em Weedcraft Inc uma charmosa e criativa empreitada no gênero tycoon, mas bastante falha como videogame. O debate que ele toca sobre a cannabis, bem informado e com uma honestidade impensável para o Brasil, é até interessante, não fosse um detalhe: o jogo é dos EUA e estamos em 2019. Quem liga mais para isso por lá?

No mais, o título acaba parecendo bastante com a planta que o inspira: bacaninha se você curte e não tem nada mais para fazer, mas nem de longe essas coisas todas que alguém pode esperar.

Weedcraft Inc está disponível no Steam e via GOG