We. The Revolution, Sergio Moro e a farsa do juiz imparcial

Como quase todo mundo deve fazer, sempre avaliei secretamente que daria um bom juiz. Mediador desde o berço dos conflitos em partidas de bolinha de gude e das discussões de mesa de jantar, considero a magistratura apenas um passo natural nessa trajetória bem sucedida de arbítrio e contrapesos. Quando meu primeiro caso “para valer” em We. The Revolution começou, portanto, foi fácil me assenhorar feito águia diante do réu indefeso.

Um pouco de contexto: desenvolvido pela Polyslash e lançado em março de 2019, o jogo te coloca na pele de um juiz parisiense durante a Revolução Francesa. No contexto do alto século XVIII, você entende rápido que agradar os revolucionários (que garantem seu emprego) ou o povo (que garantem que sua cabeça continue sobre os ombros) é tão importante ou mais que “fazer justiça”. E é bem claro que essas coisas nem sempre vão coincidir.

Política e jogo de interesses? Nada que nunca tenha administrado. No primeiro caso, povão e revolucionários pediam a prisão de um comerciante acusado de diluir álcool para aumentar margens de lucro. Ignorei as pressões externas e me foquei nos autos, formulando perguntas (mais sobre isso depois) voltadas apenas para esclarecer o caso em si. Depois de astuto interrogatório, consegui a confissão do réu, que admitiu fazer isso para “se manter no negócio”.

Frustrando minha audiência, decidi que aquele não era um caso de cadeia, visto que violação era leve, tinha certo sentido e o encarceramento em massa é apenas uma arma das elites para massacrar e manter aterrorizado o pequeno cidadão. Caso encerrado; Justiça feita. “Eu sou um gênio”, pensei antes de fechar o tribunal e ir curtir um carteado entre amigos da elite parisiense.

Dois ou três casos depois, We The Revolution me lança a primeira bola curva: um estuprador. Um caso simples (quem diabos decidiria por qualquer destino que não a guilhotina?), não fosse um pequeno detalhe: o acusado era um herói da revolução, um soldado que “participou bravamente” da tomada da Bastilha. A acusação, apesar de fazer sentido, não possuía provas senão o testemunho da vítima, a filha de um nobre que ainda apoiava o rei Luís XVI.

Na sessão do tribunal, perguntas que complicassem a vida do acusado eram seguidas imediatamente de gritos raivosos da plateia – “todas as nobres são vagabundas”, “parem com esse absurdo e libertem o herói” e “juiz traidor” alguns deles. Para piorar, o jogo me alerta que, se optasse pela execução, teria que conduzir o acusado pessoalmente até a guilhotina, além de explicar minhas razões ao público que viesse assistir (e protestar contra) a execução.

Naquele impasse, ficou imediatamente clara uma coisa: o que menos importava ali era “justiça” ou “verdade”. Era preciso tomar lado. Entusiasta da ideia de auxiliar na derrubada da nobreza (e preocupado com minha própria cabeça), acabei pendendo para o povo e os revolucionários. À noite, a chance de ter cometido uma injustiça me assombrou. E minha esposa, com raiva do bolo que dei nela para jogar cartas (sim, o jogo lembrou disso), não deu qualquer suporte.

Na jogabilidade, We The Revolution tenta fazer coisas demais e acaba sempre na margem de meter os pés pelas mãos. No início, você comanda interrogatórios reunindo cards de “pistas” para tentar extrair informações do réu. “Perfil da vítima” e “rumores de inimizade”, por exemplo, podem ser combinadas para formar uma pergunta sobre a relação entre os dois. Esse interrogatório é importante, porque você precisa convencer o júri, influenciado por cada questionamento, a ao menos aceitar sua decisão final. Um mini-game interessante, não fosse o espaço zero para vacilos: dois ou três erros e acaba o interrogatório.

Mais para frente, o jogo vai acrescentando tantos elementos de jogabilidade novos que é difícil não se sentir sufocado. Quando dei por mim, saí de um simulador de tribunal para outro de gerenciamento de tropas e recursos com novos elementos a cada fase. Em tal hora, você está disputando espaços na hierarquia da Revolução e até territórios da Paris revolucionária. É até interessante, mas claramente não é isso que o jogo faz de melhor.

We The Revolution funciona mais como uma visual novel ou estudo de personagem, que explora de forma interessantíssima temas sobre justiça e direitos políticos, além da farsa do juiz imparcial. Se uso da toga para tocar ideais pessoais de revolução, ainda que eu considere eles corretos, é possível um julgamento justo, do ponto de vista do réu? É possível isonomia se a sobrevivência (política ou até física) é um fator a ser levado em conta pelo juiz? Se o Judiciário se deixa ser tomado por um contexto político muito maior que sua função, há espaço para alguma justiça?

A comparação com o momento recente do Brasil é mais que inevitável. Após ganhar status mítico e cravar mudanças na história do País com a Operação Lava Jato, o então juiz Sergio Moro teria condição de absolver o ex-presidente Lula no caso do triplex? Até que ponto “revolucionários” e “povo” aceitariam uma decisão do juiz divergindo da que eles buscavam? Para eles, o petista era visto como um “herói da Bastilha”, ou como uma ameaça permanente à “revolução”?

Vale lembrar que, em 2018, às vésperas do julgamento sobre a prisão do petista no Supremo Tribunal Federal, o então comandante-geral do Exército, general Villas Bôas, veio a público dizer que as Forças Armadas “repudiam a impunidade” e estavam “atentas às suas missões institucionais”. O leitor pode até concordar ou achar que não há problema algum nisso, mas há de convir que a fala influenciou de alguma forma a votação no Supremo. E o julgamento justo?

Nas conversas interceptadas reveladas pelo The Intercept, Moro aparece prestando “consultoria” à força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal, que acusava os réus da Operação. Encarregado de julgar os casos, o juiz orientou a elaboração de pareceres, sugeriu testemunhas, cobrou operações e chegou até a mexer na equipe de acusação – como no caso em que sugeriu a exclusão de uma procuradora considerada “fraquinha” de interrogatórios.

Vale lembrar que, ao contrário do que dizem por aí, você não precisa ser um petista inveterado ou um bolsonarista fanático para questionar potenciais abusos do Judiciário. Você pode até concordar com Moro, mas tem de entender que vai ter certo sentido se algum dos réus se sentir injustiçado com esse histórico. Se você tem certeza de que os condenados são criminosos, não haveria mal algum em dar a eles um julgamento justo. O que fazemos diante dessa injustiça? A resposta que se dá a essa pergunta diz muito sobre o quão humano está o sistema Judiciário de um país.

Revisitando tudo, é difícil não lembrar de várias das provocações que We The Revolution lança ao jogador durante o enredo. O pano de fundo do Terror Jacobino, período mais conturbado da Revolução e que se revezava entre esperança e paranoia, não poderia ser mais interessante. Tudo é apresentado ainda de uma maneira fluida, com personagens carismáticos e texto muito bem escrito. Em nenhum momento o jogo prega para você nem tenta dar lições de moral.

A cereja do bolo é a direção de arte impecável, com visual único inspirado na arte do período revolucionário e uma trilha sonora excelente. Cada botão ou ícone do jogo é extremamente polido e bem resolvido, o que acaba sendo essencial porque em dado momento o jogo vira uma bagunça de situações e menus diferentes para o jogador administrar.

Vale lembrar que, após muita cabeça cortada, a Revolução Francesa terminou em um golpe de estado tocado por um militar patriota e superpopular – o próprio, Napoleão Bonaparte. Robespierre, o líder maior jacobino que ajudou a montar o Tribunal Revolucionário para perseguir e executar opositores, acabou ele próprio na guilhotina. E quase todos os juízes que o apoiaram foram junto.