Trocando balas com russos nas estações de Metro 2033 Redux

É impressionante como o gênero de tiro em primeira pessoa esconde pérolas. De tantos em tantos anos, nós olhamos para trás e notamos como haviam jogos que não receberam sua devida atenção quando foram lançados, mas devido a suas peculiaridades acabam se tornando clássicos cult.

Metro 2033 Redux, o primeiro da série, é para mim, um exemplo desse fenômeno. Lançado em sua primeira versão em 2010, o jogo teve uma recepção bastante favorável de crítica, só que comparado ao seu sucessor, seu número de vendas foi bastante inexpressivo.

Seu cenário é mais um mundo distópico, afetado por um inverno nuclear. Elementos de terror se misturam com a temática militarista, nada de muito incomum para jogos. Então o que faz desse jogo digno de uma remasterização?

Baseado em uma série de livros russa e desenvolvido por um estúdio ucraniano, o charme de Metro pode ser associado com seu estilo tão diferente do padrão ocidental. A ambientação e o sotaque carregado dos personagens não é nem de longe a única coisa soviética que o jogo carrega consigo.

Vodka, cinismo, senso de humor quando de frente ao perigo, os personagens de Metro são sempre interessantes e dignos de se ouvir. Por mais que a maioria dos diálogos sejam primariamente expositivos em sua natureza, a criação do mundo que era feita através deles trazia sempre algo de interessante em um nível e outro. Uma discussão entre dois guardas de uma facção inimiga era sempre algo de destaque.

A cada nova estação de Moscou você vê um pequeno universo, repleto de conversas paralelas que se misturam em vozerios e canções. E não é exagero quando eu digo que se misturam. O jogo não faz questão nenhuma de esperar um diálogo acabar para começar outro. Então se você decidiu aumentar a sua imersão colocando a opção de áudio para Russo, sinto muito, essas legendas não esperam por ninguém.

Situações como essas são apenas um sintoma do que pra mim seria a maior qualidade de Metro 2033. A forma como ele impõe sua imersão em sua jogabilidade. Criando tensão com suas mecânicas burocráticas e únicas.

Literalmente revirar corpos para pegar itens, queimar teias de aranha para não ter o movimento atrapalhado, se abaixar e procurar por armadilhas. Pequenas interações que para alguns são desnecessárias são justamente o que faz dessa experiência tão única. E essas pequenas coisas vão além de meros detalhes. Em vários momentos essa estranha dose de simulação e realismo tomam a frente.

Dentro dos túneis, é preciso tomar cuidado para que a luz de sua lanterna não atraia a atenção de inimigos. Sem se esquecer que sua baterias precisam ser recarregadas com um carregador manual. Fora das estações, o gás tóxico e a radiação podem ser fatais, então certifique-se que você tenha filtros de oxigênio. Ah, é preciso limpar o visor da sua máscara também. Ainda bem que existe um botão só pra isso. E cuidado para não sofrer muito dano e acabar quebrando a máscara que você se esforçou tanto para manter limpa. Afinal, você pode até escapar de alguns inimigos sem ser visto, mas o ar poluído não vai te perdoar.

Sem uma sensação de perigo, é difícil realmente se manter imerso em qualquer jogo, especialmente aqueles com elementos de survival horror. Por mais que a remasterização seja de 2014, a dificuldade e os inimigos te lembram que a versão original tem quase uma década. A inteligência artificial dos inimigos deixa muito a desejar. E por mais que exista uma boa variedade em tipos de mutantes, a maioria se comporta de forma parecida e seus ataques corpo-a-corpo são mais um incômodo do que uma grande ameaça. Por mais que inimigos que aparecem mais tarde sejam mais perigosos, o combate nunca é um ponto muito forte desse jogo.

Então nada mais justo do que usar da escassez em um mundo distópico para manter o jogador atento. Nesse mundo, balas militares são utilizadas como moeda corrente por conta de sua escassez. Criando então um elemento bastante único. Cabe a você decidir se equipar com uma munição mais efetiva, porém a cada tiro perde-se um pouco do dinheiro que poderia ser usado para comprar suprimentos ou melhorar suas armas. Por experiência própria, não existe tanto motivo para guardar essas balas, já que você constantemente encontra boas armas espalhadas pelo mundo, assim como itens de cura, bombas e filtros para máscara. A dependência do jogo de ser jogado em dificuldades mais altas é bastante notável. Apenas ligar o modo hardcore não é o suficiente para jogadores em busca de uma experiência mais intensa.

As fases e capítulos raramente se resumem a apenas combates. Existe uma boa variedade em coisas para você fazer ou ver. Seções de stealth oferecem uma boa oportunidade para guardar recursos, e vários segredos espalhados pelo cenário recompensam exploração e acrescentam ainda mais detalhes que fazem o jogo se destacar. Como por exemplo, páginas do diário do personagem principal que mostram seu ponto de vista em detalhes que parecem tirados diretamente da série de livros.

Mesmo com suas limitações, essa versão do jogo continua ideal para aqueles que querem uma experiência diferente do padrão para jogos de tiro. Se você estiver ansioso para o lançamento de Metro: Exodus, é provável que você já saiba de todas as qualidades e problemas do primeiro jogo da série. Do contrário, vale a pena conferir. Afinal, por mais que o som predominante no jogo seja o de balas, o som das balalaicas é o que fica com você.

Metro 2033 Redux está disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4,