Touhou Luna Nights não tem nada que faz um bom Metroidvania: mas quem liga?

Uma seita de empregadas domésticas mágicas trava uma guerra de facas, bazucas e bolas de fogo em uma realidade bizarra e cheia de criaturas mitológicas. A descrição, que parece tratar de apenas mais um dia comum no Japão, serve mais ou menos de sinopse para Touhou Luna Nights, nova entrada no universo de shooters alucinados (e muito hardcores) de Touhou Project lançada final de fevereiro para PC.

O tradicional bullet hell da série, no entanto, é virado aqui de ponta-cabeça em um Metroidvania carismático e de dificuldade bem mais acessível ao jogador ocidental. Saem balas ocupando cada milímetro da tela, entram elementos de exploração e habilidades desbloqueáveis que vão te ajudando a desbravar o curioso mundo de Touhou. Diferente dos outros, dá para jogar e manter uma vida social sadia.

Ao invés de escolher seu personagem, você encarna Sakuya, uma empregada mágica com um arsenal inesgotável de facas e a habilidade de parar o tempo (sim, é basicamente uma referência ambulante de Aventuras Bizarras de Jojo) na busca por escapar de uma “realidade paralela”. O jogo tem total ciência da própria tosqueira: do menu inicial, poucos segundos são desperdiçados até que tudo se vire em um caos de explosões e facas voando.

Mas o que, afinal de contas, faz um grande Metroidvania? Feito inúmeras vezes por gente de todo canto, o debate é quase metafísico, mas chega em alguns consensos. Resumindo quase tecnicamente, um livro sagrado do gênero ditaria mais ou menos assim: um bom Metroidvania deve ser não-linear (ou pelo menos simular bem isso) e ter foco na exploração, com o destravamento de novas habilidades que permitam a progressão para novas áreas do mapa.

Todo jogador entende: é aquele pulo que você quase consegue alcançar, aquele espaço debaixo da plataforma que daria para atravessar se você pudesse encolher (ou virar uma bola), aquele inimigo desgraçado que é imune a todas as suas armas. No caso mais frustrante, aquele itenzão supimpa que você não alcança, mas o desenvolvedor botou bem ali só pra te provocar. Todos sinais de que você não está equipado para encarar aquela área ainda.

Entra aí o famoso fator backtracking, quando o jogador volta (na marra ou por escolha própria) para alguma área anterior do jogo após ganhar alguma habilidade nova. Ganhei um pulo duplo? Talvez seja a hora de voltar praquelas duas plataformas altas que eu deixei para trás.

Na balança, um Metroidvania é tão bom quanto mais fluida, criativa ou surpreendente for a conversa entre essas mecânicas. No clássico Castlevania: Symphony of the Night, você é pego de surpresa por portas e elevadores de áreas avançadas que, do nada, vão parar no início do jogo. Em Super Metroid, uma arma nova destrói parte do cenário e abre uma zona gigantesca que você nunca sonhou que sempre existisse ali, bem debaixo do seu nariz. Em Hollow Knight, um dash muda totalmente sua relação com o mapa do jogo até ali. Todo entusiasta de joguinhos tem bem cravado na memória algum momento assim.

Aquela hora em que o castelo de Symphony of the Night vira de ponta-cabeça

Segura as expectativas: nada disso rola em Touhou Luna Nights. Nas poucas horas que você precisa para terminar o jogo (ele é bem curto, embora novos conteúdos estejam sendo adicionados de tempos em tempos), o progresso é todo linear e previsível, com uso quase zero do mapa aberto. Passei por uma plataforma inacessível? Tanto faz, provavelmente vou abrir a habilidade necessária logo depois, seja um pulo duplo ou uma chave.

As cinco áreas do jogo pouco se conectam e o backtracking para zonas anteriores é mínimo, servindo só para power-ups praticamente inúteis. Aquela sensação gostosa (e ligeiramente enlouquecedora para os complecionistas) de se perder no meio de rotas diferentes  simplesmente não existe, e sua falta é sentida. O jogo não muda as regras, não surpreende, não tenta ser mais do que é.

Tudo isso seriam falhas para qualquer jogo do gênero, não fosse uma coisa: Touhou é divertido para caramba. Mesmo sem muito estímulo, ainda é curioso explorar o mundo da série, nem que seja pela pura maluquice envolvida. Não sei a opinião do jogador médio, mas fadinhas com armaduras medievais pilotando metralhadoras giratórias gigantes é o tipo de bizarrice em que eu estou sempre disposto a embarcar.

Luzes, pontuações e explosões piscam na tela num ritmo frenético quase arcade, que lembra bem a vibe dos shooters Touhou, e a trilha sonora sempre pulsante cai bem no clima geral de caos. Uma das mecânicas emprestadas da série original, que te deixa recarregar pontos de vida e munição ao “tirar uma fina” de inimigos (que você vai precisar usar), dá uma carga extra de tensão a cada desafio. Tudo que rola na tela é narrado por uma voz robótica que, embora vá cansando com a repetição, aumenta a sensação de estar jogando um shooter de fliperama.

A mecânica de controle do tempo, mesmo hiperexplorada por outros jogos a essa altura, também ajuda: é inexplicavelmente satisfatório congelar o tempo, espalhar facas pela tela e ver vários inimigos explodindo juntos quando o fluxo volta ao normal. As batalhas de chefes são outro ponto a parte: todas são como mini-puzzles, que podem ir do impossível ao fácil caso o jogador entenda a ideia por trás de cada “chefona”.

A opção dos desenvolvedores é clara: risco, só na troca de gêneros. De resto, o jogo joga na defensiva e explora bem o que fez de Touhou um clássico de nicho, com controles ultraresponsivos e um mundo bizarro. Com algumas áreas a mais (cinco é realmente muito pouco), o jogo poderia tomar um bom lugar de destaque mesmo em um contexto tão superpopulado por Metroidvanias como o atual. A cada área desbloqueada, o desgosto pela exploração mal resolvida dá lugar ao prazer de encarar novos inimigos e cenários esdrúxulos.

Tudo descontado, Touhou Luna Nights é um jogo marcado pela pouca ambição, mas bastante divertido e que vale cada centavo para fãs do universo Touhou ou de Metroidvanias. Ainda que não utilize bem os conceitos clássicos do gênero, ele apresenta seu mundo colorido e surreal com personalidade suficiente para manter a exploração genuinamente interessante. E é sempre isso, no final das contas, que realmente importa em um bom Metroidvania.

Touhou Luna Nights está disponível no Steam por R$ 34,99