Todos querem ser a netflix e isso não é bom

O conteúdo sob demanda está virando motivo para grandes empresas caírem no tapa para saber quem vai dominar perantes aos outras.

Seja na música com Spotify, Apple Music e Tidal ou no audiovisual, com Prime Video, Netflix e HBO GO, todo mundo quer criar um serviço de assinatura para chamar de seu.

Agora, chegou a hora dos jogos eletrônicos. Enquanto algumas empresas tentam resolver a questão do streaming, outras estão caindo na real que fornecer um serviço por um valor fixo para jogar é uma realidade viável.

Isso ficou aparente após a E3 desse ano, onde a Ubisoft anunciou o UPlay Plus e a Square Enix deu a entender que também pretende entrar nessa festa.

A Electronic Arts saiu na frente, se formos falar de publishers, quando lançou o EA Access em 2014. Claro que era difícil ficar animado uma vez em que a percepção do público perante a empresa só tem piorado, mas naquela época ninguém se atrevia a disponibilizar seu catálogo dessa maneira.

Uma empresa como a EA lançar um serviço como esse era uma loucura. Preço acessível, posso jogar o que quiser e ainda tenho desconto em jogos dela além de ter acesso antecipado para grandes títulos como FIFA e Battlefield? Onde é que eu assino?

Essa assinatura ficou durante anos disponível apenas para consoles (a versão de PC é ligeiramente diferente e possui o nome de Origin Access), sendo exclusivo para a família Xbox. Com isso, consigo imaginar que essa aproximação atiçou a galera da Microsoft para fazer o Game Pass em 2017.

Foi aí que o bicho pegou. Agora além de ter a possibilidade de jogar meus jogos antigos, posso ir atrás de uma biblioteca enorme? Como disse uma vez o grande poeta: mim dê papai.

Game Pass era o serviço que todo mundo queria faz anos. Poder baixar um título de uma biblioteca que vai se renovando constantemente e com um preço camarada. Liberdade, diversão e o poder de jogar aquilo que você queria tanto mas nunca teve a oportunidade.

Por mais que seja incrível ter esse acesso, a briga entre assinaturas pode ser mais feia e gerar piores consequências na indústria dos games.

Para começar, a briga por exclusividade pode ser bem mais grotesca do que já é. Estamos acostumados a ter que comprar um console para jogar algo específico, então não é novidade quando vemos o pessoal reclamando do TIDAL, Netflix ou HBO por ter conteúdo próprio.

A Microsoft deu uma pincelada nisso em sua conferência, citando jogos que ao saírem, vão estar disponíveis automaticamente no Game Pass. A Ubisoft também disse o mesmo no caso de seus títulos.

Ainda não chegamos lá, mas o que vai acontecer quando tivermos jogos exclusivos a um serviço? Não é difícil imaginar ter que assinar algo para ter acesso, posso estar extrapolando aqui mas jogos obtidos de graça pela PSN Plus funcionam dessa maneira.

Você só tem acesso a eles se paga pelo serviço. Ter acesso a um jogo único, sem ter que comprá-lo por uma loja é algo bem fácil de acontecer tendo em vista as práticas malucas que a indústria de games realiza.

Na verdade, isso pode acontecer, graças ao Apple Arcade. A empresa do iPhone tem investido na produção de diversos títulos para o serviço que vai rodar em iOS, Mac e Apple TV.  A sequência de Beyond a Steel Sky, é um exemplo e resta saber se será um exclusivo do Arcade ou da plataforma.

Exclusividade é o que vende, por mais que alguém por de trás de um serviço queira que seja acessível, é questão de tempo que comecem a criar algo próprio. Netflix demorou um tempo até ter recursos para arriscar a criação de sua primeira produção original em 2013 e hoje as porteiras se abriram.

Poderia até especular e pirar aqui no que significaria um desenvolvimento de games baseado em algoritmos do jeito que a Netflix cria suas séries, mas não tô afim de ser um arauto do apocalipse ainda. Quem sabe outra hora.

As mesmas questões que afligem as outras áreas, também são pertinentes em relação aos games. Na verdade, são questões que já acontecem, como a morte da noção de posse. Basta pegar o fechamento recente da loja de eBooks da Microsoft e o desligamento do Wii Shop Channel.

Parece que a gente se acostumou com o fato de que não somos donos daquilo que consumimos e tá tudo bem. Meu irmão ligou para mim essa semana perguntando dicas por que ele quer comprar um videogame novo e disse que quer evitar comprar digital, quer ter a caixinha na mão e ter certeza que vai conseguir jogar quando quiser.

Essa discussão permeia jogos faz anos e com a solidificação desses serviços, só fica mais relevante, principalmente se exclusivos forem introduzidos. Por mais que seja interessante jogar Void Bastards ou Gears Of War, não sou dono deles e não posso ter acesso para sempre.

Por isso que lojas como GOG, Itch.io e Humble Store hasteiam a bandeira de jogos sem DRM. Ou seja, comprou, baixou e o arquivo é seu, sem necessidade de abrir um client para rodar, basta clicar no ícone e correr para o abraço.

Além disso, outra questão que já assusta alguns desenvolvedores é como fica para aqueles que são independentes. Claro que o Game Pass possui uma seção dedicada a eles, mas quando estiverem disponíveis dezenas de títulos, como eles vão competir com grandes produções?

Adriaan de Jongh, co-criador do Hidden Folks, disse em entrevista ao The Verge que o serviço da Apple significa uma nova fonte de renda para os desenvolvedores. Mas que essa demanda por ficar em contato constante com eles é difícil se você for alguém que faz jogos pequenos.

E falando de renda, o buraco é bem mais embaixo. Esse tipo de coisa fica geralmente escondido por motivos contratuais, mas diversas questões são importantes de se colocar: Como desenvolvedores podem colocar seus jogos? Como eles vão ser pagos? Qual a porcentagem de renda? Por quanto tempo? Podem colocar em outros serviços?

São questionamentos pertinentes que muitos não sabem lidar e durante anos são alvos de críticas, tipo o Spotify. E parece que não ligar, tanto que recentemente anunciou que artistas não vão mais conseguir subir faixas na plataforma, favorecendo as distribuidoras digitais no processo.

Ainda na comparação com Spotify, antes dessa mudança, aqueles artistas ligadas a grandes gravadoras ou selos, tinha a vantagem do marketing. Então não precisavam se importar muito com o valor que vinha do serviço, mas quando você não tem alguém cuidando disso ou é muito pequeno, depende direito da quantidade de streamings.

O valor gerado por cada transmissão varia entre U$0,006 e U$0,0084, o que é bem pouco. Para colocar em perspectiva, uma reportagem calculou que a música ‘Shake It Off’ da Taylor Swift que foi tocada 46,3 milhões de vezes, ganhou entre U$280.000 e U$390.000.

Esse valor é repassado para aqueles que possuem direitos da canção, que pode ser uma pessoa ou uma vasta lista. Nem preciso falar o que isso significa para artistas pequenos e independentes.

Isso também cria uma indústria obcecada pelo valor individual de uma música que segundo um estudo, estão ficando mais curtas. E para sobreviver, é fácil ver artistas colocando seus trabalhos em todas as plataformas possíveis.

Saber o verdadeiro lucro e vantagem de estar no Game Pass é importante para o desenvolvedor independente. Essas são questões que Sony e Nintendo (risos) vão ter responder uma vez em que resolverem entrar nisso de cabeça. É algo apenas relevante para a galera indie, que vai sentir qualquer flutuação do lucro diretamente na pele.

Sinto que a Microsoft e similares, precisam ter isso em mente por que oferecer outro serviço que só vai beneficiar jogos relativamente grandes ou com publishers de renome, não vai pegar bem. Basta olhar pro cenário atual, que é palco para a briga entre Epic Games Store e Steam.

A Epic está tentando pegar tudo e todos para colocar na sua plataforma, criando táticas quase que predatórias para garantir exclusivos. O Kotaku fez uma ótima compilação dos problemas da loja em Abril, apesar de alguns terem sido resolvidos ainda é relevante.

Já o Steam, está tão confuso que hoje desenvolvedores estão falando que é praticamente inviável deixar seu jogo lá. Também no Kotaku, alguns contaram suas experiências com o evento promocional de verão e não são boas histórias.

Hoje a noção do que é uma publisher está bem mais maleável do que anos anteriores e mais fácil de acabar se juntando em uma firmeza. E plataformas como o Itch.io, permitem que qualquer publique um jogo e receba diretamente, sem intermediários, então soluções existem. Também não é como se uma nova versão da PS Now tivesse algum título super experimental.

E falando em intermediários, todos que pensarem em fazer um serviço de assinatura precisam pensar nos direitos autorais. Talvez seja a maior dor de cabeça, que já é motivo de frustração para galera dos filmes e séries.

Seinfield só está disponível na Amazon Prime e a Netflix teve que pagar uma bolada para manter Friends por mais um ano.

Quando existirem serviços completos, com jogos de diversas empresas, um jogo como Doom, estaria disponível em todos? Essa conversa e noção sobre direitos se aplicaria também aos jogos? É possível e quero muito vê como isso vai acontecer.

Basta lembrar que a história dos video games é repleta de anedotas sobre o quão maluco o processo de direitos autorais pode ser. Uma empresa pode ser dona do código, enquanto uma da arte e uma terceira responsável pela distribuição em região específica.

O documentário sobre o GOG, que é responsável por trazer versões jogáveis para computadores modernos de jogos clássicos, conta um pouco dessa dor de cabeça.

Não posso negar que essa corrida em cada empresa ter o seu próprio serviço é empolgante. Quando a Ubisoft anunciou o dela, não conseguia parar de pensar quantos jogos antigos que ela tem no catálogo que eu não faço ideia de quais são e só quero jogá-los agora.

E se colocarmos empresas como Capcom e Konami na jogada, a empolgação só aumenta na possibilidade de ter em mãos tantos títulos importantes, esquecidos novos por um preço fixo com a liberdade de jogar quando quiser. 

Mesmo assim, ao observar que essa peleja que estamos vendo na música, filmes e seriados, pode ser traduzida para os games, só fico com medo. Em 2018, o Engadget mandou o papo de que as exclusividades de filmes nos streamings só aumentou a procura por torrent.

Em games, não acho difícil seguir os mesmos passos e aumentar a demanda por métodos mais fáceis de emulação. 

Com um futuro onde jogar por streaming é uma realidade possível, serviços por assinatura podem ser a bola da vez. Somado com anos e anos de especulações sobre a morte dos consoles, isso pode realmente acontecer e é difícil ser totalmente otimista.

Eu só quero jogar meus games num lugar só, peço mais nada não.