Swag and Sorcery é uma piada que foi longe demais

Pode ser só velhice, mas não consigo entender a ideia por trás de Swag and Sorcery. Lançado agora em maio, o indie é uma espécie de fusão lenta e cheia de grinding entre o gênero tycoon e aqueles idle games de celular/sites de jogos em flash. O chamariz malandro do negócio é que ele traz o bizarro estilo de vida swag – a tal “ostentação” aqui no Brasil – para o centro de um contexto medieval. Sim, faz tão pouco sentido na prática quanto na teoria.

Ahh, os idle games: aquilo que era vida. Quem perdeu tempo o bastante pela internet pelos anos 2000, certamente se lembra daqueles agregadores de jogos em flash, como o Kongregate e o Newgrounds. Algum tempo depois, no apagar das luzes dessas páginas e quando a maioria dos jogos mais simples migrava para o mobile, surgiu um gênero que daria uma sobrevida a esse nicho. Eram os tais “incremental games”, onde você basicamente clica em botões atrás de recursos e compra itens que automatizam os cliques, fazendo o jogo jogar por você.

Quem já “jogou” qualquer título desse tipo, seja o pioneiro Cookie Clicker (2013) ou o gigantescos Clicker Heroes (2014) e Adventure Capitalist (2014), sabe bem o que esperar: cliques, espera pelo preenchimento de algumas barras, compras de rotinas de automatização. A coisa dava certo porque muita gente tem rotinas apertadas, e os tais idles encaixavam bem em qualquer uma – era só entrar alguns minutos, dar uma geral no jogo e seguir a vida. Horas depois, o lucro acumulado dava sempre certa satisfação, mesmo sem você ter feito nada.

Agora, sabe o que nenhum desses jogos nunca teve? Uma tarja de preço.

Em todos os exemplos mais conhecidos, os jogos são gratuitos, com um sistema interno de microtransações para a compra de vantagens (barras que enchem mais rápido, cliques mais eficientes, etc). Ora, o próprio modelo de negócio do gênero se baseava nisso: a empresa sequestrava o jogador com o progresso inicial rápido e prazeroso, e depois forçava ele a comprar algum item se quisesse algo além do grind eterno. Swag and Sorcery quebra a regra de ouro do idle já cobrando R$ 25,99 pelo jogo base. E é isso que eu não consigo entender.

Se fosse gratuito, o título faria certo sentido e, muito provavelmente, estaria hoje entre os destaques do Steam e fazendo alguma grana com compras internas. Pagando quase 30 mangos pela experiência, é quase inevitável que o jogador só se sinta tapeado. O jogo é, afinal de contas, só o seu bom e velho idle game: você compra alguns soldados, manda eles para missões (que demoram um tempo considerável sempre) e usa as recompensas delas para forjar itens melhores. Não existe uma “derrota” de fato aqui, a única ameaça é sua paciência.

O ritmo é tranquilo no início, mas com pouco mais de meia hora de jogo já atingia minha primeira barreira, um chefe claramente casca grossa demais para o meu time àquela altura. A própria história me recomendava, através de uma missão extra, o que fazer: grindar cobre e madeira suficientes para fazer armas e armaduras melhores. Como recompensa, eu poderia… grindar novos tipos de metais para fazer mais armas e armaduras. E por aí vai.

O que esperar de um jogo que vende “grind” como um feature?

Justiça seja feita, o jogo é bem bonito. A variedade de assets envolvidos, sobretudo roupas detalhadas para um número bem generoso de combinações, é realmente bacana. Eu vejo isso e quase consigo entender como os caras conseguiram fazer algo tão mediano, olhar para a coisa feita e achar digno de sentar num tapa uma etiqueta de US$ 10. É quase como se eles quisessem compensar o capricho tão grande nos sprites.

O rolo por trás do swag é outra fonte de incompreensão para mim. De tempos em tempos, as rotinas de missões pausam (graças a Deus, finalmente alguma novidade) para você alistar seus soldados em uma batalha de “swag”, uma espécie de concurso de estilo de itens cosméticos. Sim, é uma piada do jogo, isso é óbvio. O negócio é que – e eu sinto até certa vergonha de dizer isso – estamos em 2019. O jogo tem público alvo de adultos em uma crise de meia idade, ou ficou preso no desenvolvimento por quase meia década? Vá entender.

O resultado é que esses concursos, assim como todas as cutscenes da história “descolada” e “satírica” do jogo, são só um festival de vergonha alheia chato e sem propósito.  Eu não quero odiar Swag and Sorcery, eu quero abraçar o pessoal da Lazy Bear Games (do inesperado hit Graveyard Keeper, olha só) e dizer “calma, tá tudo bem agora”. 2015 foi sim um bom ano.

Idle games são polêmicos (muita gente prefere morrer antes de ser flagrado com um), mas possuem seu público. Fáceis de encaixar no dia a dia como uma distração sem muito desafio e adaptáveis para qualquer contexto (tem até de Pokémon), eles seguraram a relevância de agregadores de jogos por um bom tempo, até que migraram de vez para o mundo mobile. Swag and Sorcery também é um jogo mobile, só que no PC. Agora, vocês me desculpem que eu vou ver quantos biscoitos renderam no Cookie Clicker enquanto eu escrevia essa porcaria.

Swag and Sorcery está disponível para PC via Steam

A cópia para análise foi cedida pela tinyBuild

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