SteamWorld:Quest entende o que faz um bom RPG

Hoje em dia é muito fácil gostar de RPG. Seja em versão digital, com as centenas de jogos que empregam elementos desse estilo que antes era limitado a jogos japoneses com durações centenárias e protagonistas de cabelos pontiagudos. Ou em versão de mesa, com um grupo de amigos jogando alguns dados, seja presencialmente ou pela internet.

Parece que RPG nunca foi tão acessível e convidativo, e isso me deixa bastante feliz. Passou o tempo de fazer xerox de livro de D&D para ter acesso às regras, ou, como na minha época, ter que vasculhar camelô em busca de qualquer coisa que não seja um Final Fantasy. É bem fácil achar uma galera para jogar ou comentar sobre o hobby.

Não faz nem um mês que eu vi um stories no instagram de alguém falando que queria jogar, e agora essa pessoa tá bem situada em uma campanha com alguns amigos meus. Mas o quanto essa popularidade se reflete nos video games?

É difícil de dizer. Desde sempre houveram jeitos fáceis de entrar nessa onda de joguinhos por turno. Pokémon deve ter milhares de fãs que nem mesmo sabem que o jogo é considerado um RPG. Mas talvez pela popularidade da versão de mesa, graças a podcasts e streams da twitch com pessoas famosas, a versão digital também parece estar experimentando um pouco mais de popularidade. Por algum motivo, esses jogos foram de super intimidadores, com seus longos diálogos e sistemas complexos, para algo bem mais convidativo nos últimos tempos.

SteamWorld: Quest é um ótimo exemplo disso. Seguindo tendências mais modernas e sem medo de tentar coisas diferentes em seus sistemas, o mais recente jogo no universo SteamWorld, criado pelo Image & Form, é um bom exemplo de como tem espaço para mudanças no gênero. Trocando um combate mais convencional por um no estilo de jogos de construção de baralho, SteamWorld aprende o que precisa daqueles que vieram antes, mas faz a sua parte para ser único. Muito das suas temáticas podem ser consideradas derivativas. Mas esse gênero é por natureza, derivativo.

Dragões, cavaleiros, magos e uma jornada para impedir o mal. Não importa se no passado, no futuro ou em um mundo de robôs movidos a vapor. Todas essas histórias fantásticas são comuns para nós. Elas habitam a nossa imaginação há sabe-se lá quanto tempo, mas isso não diminui o apreço que temos por uma boa aventura. E esse jogo não perde tempo em te inserir em um conto de fadas steampunk. A história tem um ritmo rápido, que misturado ao combate sempre dinâmico e mutável, não dá espaço para monotonia e tédio.

Para quem não está familiarizado em sistemas de deck-building, o jogo faz um bom trabalho em explicar passo a passo: cada membro do seu time tem seu próprio baralho com exatamente oito cartas. Bem simples, você escolhe até três personagens no seu time, oito cartas cada um, vinte e quatro cartas para você brincar. Mas essa simplicidade rapidamente dá espaço para muitas possibilidades, criando um combate dinâmico que muda drasticamente a cada encontro com inimigos. Existem dois tipos de cartas, padrões e de técnica. Cartas padrões geram engrenagens, um recurso compartilhado entre todos os membros do seu time. Já as cartas de técnica consomem essas engrenagens para serem utilizadas. Cada turno você joga três cartas, e se as três forem do mesmo personagem, uma quarta carta especial vai junto.

É necessário saber se virar com a mão que você recebe, mas você pode garantir uma vantagem, montando um baralho com cartas que se complementam e criam combos. São mais de 100 cartas para escolher, então não faltam opções de customização. Especialmente porque ainda tem muito do estilo de RPG clássico. Equipamentos, atributos, buffs e condições como veneno ou confusão. Rapidamente o limite de oito por personagem faz todo sentido, é uma maneira de manter uma estratégia mais concisa.  Encorajando novas combinações e estilos de jogo e se aproveitando ao máximo da sinergia entre personagens. Um baralho bem feito nunca vai te dar aquela impressão de que você não fez nada no turno. Muito pelo contrário, constantemente você irá achar que está quebrando o jogo, com danos absurdos e efeitos que acabam até mesmo com os mais poderosos chefes.

Não é apenas no combate que paradigmas são quebrados. Basta olhar para o elenco de personagens, e ver que hoje em dia o grupo de aventureiros padrão mudou bastante: Uma filha de camponeses que sonha em ser uma cavaleira, uma maga que saiu fora da universidade por não estar se adaptando e seu amigo grandão que fica com ansiedade ao sair de casa. A ideia de inclusão é muito bem representada pelos três primeiros personagens do seu time. Não poderia ser mais fácil se identificar com esses personagens. Focando sua história mais na jornada pessoal dos protagonistas e desenvolvendo eles em interações e diálogos com o próprio grupo, o jogo cria uma experiência mais íntima. Mas sem deixar de lado totalmente a narrativa. Existe ainda um perigo pro mundo, e por mais que a história tenha um escopo menor, ela não decepciona de forma nenhuma.

Especialmente porque tudo nesse universo tem muito charme. Mesmo com a simplicidade do mundo, que é separado em capítulos totalmente lineares, eu ainda me via impressionado pela estética de cada fase. O estilo desenhado à mão casa perfeitamente com o tipo de história que é contada, e o design de cada personagem é interessante e define muito bem suas personalidades. Sem falar no bom humor que é típico dessa série, além de um bom número de referências, que chegam até a mencionar Podcasts de D&D.

SteamWorld: Quest sabe de suas limitações, e não tem vergonha de ser um jogo pequeno. Mas a competência com que tudo é feito mostram um grande carinho, tanto pela série quanto pelo gênero de RPG. Existem alguns problemas, como a baixa variedade de inimigos e a repetição de conteúdo. Mas se esse jogo conseguir convencer pelo menos uma menina de que ela pode também ser uma heroína, ou apenas de que esse estilo de jogo não é tão intimidador assim, então eu sinto que ele desempenhou muito bem o seu papel.

SteamWorld: Quest está exclusivamente para Nintendo Switch.

A Cópia para Review foi cedida pela Image & Form