Simples e elegante, Islanders é quase um ASMR de Sim City

Se você é como eu, aqui vai um conselho: nunca marque uma consulta médica para a mesma semana de um evento importante (uma prova, a entrega de um projeto, que seja). O temor do deadline e a expectativa do diagnóstico formam na cabeça o mais tenebroso dos caldos. Esmagada sobre múltiplas pressões, a mente humana se rende a noites em claro, anestesiada diante do horror de pesadelos com o frio abraçar da morte a te cercar.

Sorte que existem várias estratégias para ignorar os demônios da ansiedade (até porque procurar ajuda profissional e enfrentar seus problemas é para perdedores, né). Álcool, comportamentos impulsivos, comida, e, mais recentemente, os infames ASMRs (Autonomous Sensory Meridian Response), aqueles vídeos bizarros de gente sussurrando e mexendo em coisas que supostamente relaxam e ajudam o ansioso a dormir. O retrato de uma geração.

Mas… videogames! Saiu agora em abril Islanders, uma espécie de Sim City minimalista (como a própria desenvolvedora de três pessoas GrizzlyGames faz questão de frisar) até agora disponível só no Steam. Ao contrário dos primos ricos do gênero, o foco aqui não é ser escravo do dinheiro nem formar uma megalópole tirana, mas acumular pontos em pequenas ilhas geradas proceduralmente a cada clique de novo jogo.

A ideia é bem simples: usando kits de peças que o jogo te dá cada vez que você bate uma meta, você tenta construir uma ilha “eficiente” o bastante para alcançar um número x de pontos (e aí pula para a próxima), ou até ficar sem novas construções disponíveis (e aí é game over). A eficiência é medida por quão bem você consegue aglutinar peças que possuem “afinidades” entre si – plantações valem mais pontos se próximas de um moinho, por exemplo.

No começo, o jogo te oferece só kits bem básicos, como um de “pequena vila”, com casas, mansões e um centro da cidade. A coisa (e o tamanho das ilhas em si) vai crescendo, e agrupamentos mais complexos, como de tendas xamânicas e armazéns, e até peças que são antipáticas com outras vão aparecendo. E é basicamente isso: nada de árvores de habilidades, gerenciamento de recursos nem construção de estradas. De complicada basta a vida.

Toda essa simplicidade é embalada em uma jogabilidade que, de tão relaxante, parece um vídeo de ASMR. A trilha sonora, leve e meditativa, é essencial nisso. Mais do que um “prefeito”, me senti na pele de um artesão de maquetes coloridas e exuberantes. Não existem prédios feiosos nem nada que pareça “errado”: tudo vai se desenrolando em uma atmosfera leve, que me fez desejar que minha vida se encaixasse tão fácil quanto as casas em Islanders.

O jogo em si acaba sendo quase um tetris isométrico, com você girando e apertando peças na busca por uma ilha “otimizada”. As sinergias entre construções são autoexplicativas (e até meio caricatas): ricos gostam de joalherias e de morar em lugares elevados, mas desprezam tendas de circo perto de suas mansões. Casas pobres dão bônus maiores para bares e igrejas construídas perto. Todo comerciante odeia o livre mercado e não quer concorrentes perto.

Sem a prisão do dinheiro, o desafio (e ele existe) é gerenciar espaços vazios da ilha, ir jogando já com futuras construções em mente. Um dos meus momentos mais satisfatórios veio quando consegui, após um bom tempo comprimindo peças entre si, instalar um mercado no espaço entre duas vilas de casas, aproveitando ao máximo ambas e levando, numa só lapada, mais de uma centena de pontos. HMMM! Toma-lhe, nunca dei uma clicada com tanto gosto.

Vale ressaltar o quão “good” é a “vibes” do jogo. Não existem edificações militares, conflitos nem risco de desastres. O maior conflito no universo de Islanders é o de que ricos não gostam de tendas xamânicas perto de suas mansões.

Islanders preza pela simplicidade sobre a ambição, mas o preço de R$ 12,39 ajuda a relevar isso. Cada partida é rápida e sem grandes riscos: você clica em “new game”, gera uma nova ilha, vai construindo sua cidade e, se encaixar bem as coisas, pode passar para um novo mapa em minutos. Se esgotarem as peças, tá tudo bem, é só começar de novo. O jogo estimula o desapego, mas há estratégia o bastante para manter a massa cinzenta interessada.

Como uma dessas pessoas malucas que só funcionam sobre pressão e infinitos deadlines, encontrei em Islanders um refúgio quase terapêutico para as horas vagas. Como não há muito conteúdo nem multiplayer (apenas um tabelão online que registra pontuações mais altas), não sei o quanto continuarei voltando para novas cargas de massagens virtuais. Mas ir montando maquetes provavelmente vai continuar um hobby por um bom tempo.

Ah, e tudo sem ter que encarar a bizarrice nem a tensão sexual constrangedora dos ASMRs.