Samurai Shodown e o peso da Nostalgia

Nada desmonta mais rápido um argumento do que uma acusação de nostalgia. Uma arma poderosa para invalidar opiniões e descartar discordâncias, a nostalgia parece ser algo bom apenas para aquele que a possui. 

Esse estigma negativo em críticas e afins parece um tanto injusto. A capacidade de fazer você se transportar para outros tempos, pra época em que se usava uma camiseta em cima do D-Pad para não ralar o dedo não pode ser de todo mal. Não é qualquer jogo que faz isso. Mas por definição a nostalgia não é empática. Ela separa pessoas baseadas em sua geração, se você não gostou disso é porque quando era criança tu já usava o analógico pra dar meia-lua. 

As pessoas ainda chamam o “baixo-diagonal-pra-frente-frente” de meia lua? 

Eu nunca joguei Samurai Shodown de 1993, então fica muito difícil comparar o novo jogo da SNK com a primeira iteração da franquia. Mas precisa? Afinal, Samurai Shodown de 2019 é supostamente um reboot. Assim, mais ou menos né? A moda da última década é dizer que algo é reboot mas preserva um monte de coisa. Não que isso seja ruim, é uma maneira de tirar um pouco de gordura e se concentrar no que fez a série ser aclamada em primeiro lugar. 

Samurai Shodown define bem essa moda dos reboots. Uma inovação que preserva aquela sensação de jogo legado. O seu estilo de luta é mais metódico, mais lento, com foco em reação, em ler o oponente e tirar grandes nacos de vida com um golpe bem dado, ao invés de um combo aéreo de 35 hits. A maior parte da luta está em manter a distância, ler o oponente e tomar o controle da luta. Não existe dificuldade em execução na maiorias dos golpes, algo que parece ter se tornado uma tradição entre jogos de luta atualmente. Os especiais são fáceis de fazer, o desafio está em encaixar o golpe.

O jogo recompensa muito uma postura de reações. Uma defesa bem dada pode gerar contra-ataques extremamente eficazes, com direito a bônus de dano. O número de possíveis reações é surpreendentemente grande. Além é claro da defesa e da defesa agachada, cada uma com suas vantagens, você ainda pode realizar uma esquiva, ou se estiver se sentindo corajoso, um desarme. Uma espécie de Parry, que se encaixar no golpe do oponente faz com que ele perca a arma. 

Em um jogo de luta que se destaca por colocar armas brancas na mão dos bonecos, nada é mais assustador do que ser desarmado. Por mais que você ainda possa recuperar sua arma na luta e dar uns socos e chutes, ser desarmado de alguma forma normalmente significa uma desvantagem grande demais. Além do parry, existem algumas outras maneiras de desarmar o oponente, e as duas envolvem a barra de Fúria de jogo. Uma simples barra de especial, que enche conforme você realiza boas defesas ou toma umas facadas no bucho.

Especiais nesse jogo rapidamente vão de carta coringa para fonte inestimável de dano. Você tem TRÊS tipo diferentes de ataques especiais. Um ponto interessante é que a combinação de botões para fazer qualquer um desses golpes é a mesma para todos os lutadores. Então se você sem querer pegou um carinha que nunca jogou antes, pelo menos isso tu vai conseguir fazer. O primeiro e mais simples depende da barra de fúria, só podendo ser realizado quando ela estiver cheia. Se você encaixar, esse golpe desarma o oponente além de dar dano. O outro depende que você gaste essa mesma barra para entrar em um modo especial, onde seus golpes causam mais dano e com o clique de um botão você pode soltar um especial que encerra esse modo. Esse golpe super estiloso também desarma o oponente, além de dar uma quantidade absurda de dano. Mas o fato de que você precisa abrir mão de sua barra de fúria para o resto da luta faz com que ele seja muito arriscado. O terceiro é o mais simples, muito dano, só pode ser usado uma vez por luta. 

Assim, o ritmo das lutas depende muito das interações desses golpes. A facilidade de execução é uma mudança bem vinda comparada aos jogos de antigamente, onde você tinha que decorar uma grande lista de comandos só pra fazer algo além dar soquinhos, ou no caso de Samurai Shodown, espadadinhas. 

Mas o visual não deixa você se confundir. O design de cada personagem antigo é muito reminiscente de sua versão original, e o charme de anime dos anos 90 é palpável. O elenco de lutadores conta com 13 personagens já consagrados, e 3 novos. E foi feito um bom trabalho de manter uma coesão na aparência, diferente de muitos jogos que acabam por fazer personagens cada vez mais trabalhados, perdendo a simplicidade de antigamente.

Talvez o 3D mais no estilo de Street Fighter 5, com direito a algumas proporções estranhas, possa desagradar. Especialmente porque eu acho que um gráfico no estilo de Dragon Ball FigherZ cairia ainda melhor neste. Mas essa escolha estética não tira o método do que foi realizado. O estilo meio cartunesco, com linhas grossas e pesadas que dão aquele ar de pergaminho oriental se destaca bastante e deixa o combate fluido e bonito.

Mas tudo aquilo que cerca as lutas e os visuais acaba decepcionando um pouco. Talvez por ser antiquado demais. As fases são poucas e desinteressantes, com trilhas muito tímidas que nunca chamam a atenção. Os modos de jogos parecem tirados exatamente de um jogo de 20 anos atrás, com exceção dos modos online, em especial o modo Dojo, que conta com uma luta multiplayer assíncrona, provavelmente a ideia mais interessante do jogo.

O mais complicado de se julgar é sem dúvidas a história. Pautada em acontecimentos reais da história japonesa, a narrativa não serve nem como uma boa justificativa para explicar a jornada de matança do personagem que você escolher no modo campanha. Mas jogo de luta precisa de história? Talvez o jogo esteja só te poupando de pular centenas de diálogos inúteis que lhe distraem do que que realmente importa: Passar a espada nos outros personagens.

Ainda assim, fica uma sensação de vazio. De que falta algo em Samurai Shodown, que dá a impressão que o jogo poderia ter demorado um pouco mais e sair mais completo. O resultado final remete muito a algo de outros tempos. Mas a nostalgia tem um peso, deixando muita coisa de lado que poderia aprimorar o produto final. E esse peso é sentido ainda mais por aqueles que não conheceram o original.

Samurai Shodown (2019) Está disponivel para PlayStation 4 e Xbox One.

A Cópia para análise foi cedida pela SNK