Pikuniku, crocante por fora e cremoso por dentro

Como definir algo gostoso? Ao categorizar algo como gostoso, não necessariamente o colocamos em um pedestal. É prazeroso, desperta sensações boas e, embora não seja perfeito, você vai curtir a experiência em sua totalidade, mesmo com seus problemas, apenas pela vibe.

Pikuniku, é um Sonho de Valsa: Crocante por fora e cremoso por dentro. Não é o melhor doce que tem por aí, mas a experiência é honesta e prazerosa. Parte de seu apelo para mim é evocar LocoRoco em quase todos seus aspectos, seja no visual, no carisma, charme e um pouco nas animações dos personagens.

Mas ele também compartilha algo com os trabalhos de Keita Takahashi (Katamari e Noby Noby Boy) e a série Patapon, uma abordagem focada na brincadeira, na diversão desenfreada. É a combinação do visual vetorial simples, junto com uma jogabilidade confortável que transforma a experiência em um brinquedão virtual.

O que torna Pikuniku gostoso é como ele faz você se sentir bem e aproveitar seu tempo se divertindo. Ele dá um quentinho no coração e coloca um sorriso no seu rosto. É engraçado, colorido, carismático, charmoso, cativante, bizarro. Ou seja: uma delícia.

Ele te coloca no controle de um ser vermelho sem braços e apenas duas pernas, Piku, que, para o pessoal da cidade, é um terrível monstro. Depois de mostrar que é inofensivo, parte para altas aventuras, tendo até que lidar com o CEO da Sunshine Inc, que pega os recursos naturais da cidade e em troca, dá dinheiro.

As alegorias aos problemas intrínsecos do sistema capitalista existem de montão aqui e, sinceramente, não sei como lidar com eles, muito menos o jogo. É muito difícil levar qualquer comentário a sério por criar um contraste muito forte com o universo bonitinho good vibes. Talvez gritar que o capitalismo é um lixo enquanto minutos antes você estava em uma batalha de dança com um robô em forma de nuvem não seja a melhor maneira de passar uma mensagem.

Inclusive, o humor espalhado pelas interações com os personagens e pela própria física dos movimentos de Piku é uma feliz surpresa. E não é todo dia que um jogo te avisa que caso coloque queijo ralado no macarrão é preciso lavar os pratos depois do jantar já que o queijo pode endurecer e grudar.

É muito claro que os desenvolvedores estão imersos na cultura da internet, isso é perceptível em como lida com o humor, de maneira descontraída e aleatória, que entra em conflito com a narrativa séria. A linguagem é solta, os habitantes daquela cidade falam como se fossem aquele seu amigo mandando um alô no zap e quando o jogo começa a apresentar vilões que desmatam cidade atrás de lucro próprio, você sente que tem algo de errado.

O problema não está em utilizar o visual fofo para passar uma mensagem séria mas sim perceber que faltou um certo cuidado em tornar isso coeso. É um contraste forte que você percebe logo de cara e a crítica feita acaba perdendo força.

Mas esse é a única reclamação que consigo fazer, de resto, é jogo de plataforma 2D que mistura elementos de adventure e seus ocasionais mini-games, tudo com um nível alto de esmero.

Apesar disso, a animação de Piku é levemente instável, tem um quê de silly walk mas ao segurar um botão ele abandona as pernas e vira um bolinha rolante. Com isso, pular em plataformas tem seu desafio e em momentos únicos você é colocado em situações onde a precisão nos pulos é chave para conseguir a vitória.

Essa instabilidade é colocada em diferentes contextos, já que você pode conversar com os habitantes, resolver questões importantes, como achar um visual irado para entrar em uma boate. Ele sabe quando deve mudar o ritmo para manter o jogador atento e não causar cansaço, sua natureza vibrante te incentiva a continuar explorando essa loucura toda.

Era impossível pra mim não lembrar de Katamari ou LocoRoco, enquanto eles tinham  jogabilidades únicas e diferentes como adicional, Pikuniku pega emprestado a estética inocente, de um desenho infantil. Navegar pelo cenário é simples, você tem um botão de chute que serve para resolver alguns puzzles e algumas mecânicas o utilizam em outro contexto, para se pendurar em cantos por exemplo.

Ele lida muito bem com as suas expectativas; Como o jogo sabe que sua mecânica principal não é complexa o suficiente, quebras de ritmos dão um frescor que te deixam pensando no que pode vir a seguir.

Sinto que, de vez em quando, a gente precisa de experiências que são puramente diversão e alegria. Mesmo com as alegorias malucas, o jogo não deixa de ser cativante e a possibilidade de explorar o cenário te dá a sensação de que ainda tem coisas escondidas que podem te surpreender a qualquer momento.

Do nada você chuta uma pedra e, em vez de reclamar, ela quer brincar contigo de esconde-esconde, fazendo com que fique chutando qualquer pedra que vê no caminho. Isso não leva a lugar nenhum, mas, interações como essa, constroem esse universo bizarro e viram histórias para contar.

Tipo aquele dia que reguei a planta de um personagem que cresceu tal qual João e o pé de feijão e, ao subir, uma casa flutuante. Lá morava um mago que pediu um dente dourado de um sapo. Também teve aquele rolê de quando entrei numa torradeira e passei uma série de obstáculos para tentar tirá-la da tomada.

Pikuniku preenche um espaço que poucos jogos se comprometem, aquele de trazer uma diversão boba, honesta e deliciosa. Não é o doce mais gostoso do mercado, mas ser crocante por fora e cremoso por dentro já é o suficiente para proporcionar uma boa experiência.

Pikuniku está disponível por 26,89 reais no GOG, Steam, Itch.io, eShop .