Neo Cab e como o capitalismo vai destruir tudo (e todos)

Tive meu primeiro ataque de ansiedade logo na segunda corrida de Neo Cab, uma espécie de “simulador de Uber sci-fi”, ao descobrir que o silêncio não era uma opção viável. É sério: das pequenas inconveniências da vida moderna, uma das que mais abomino são os motoristas de aplicativo falastrões, daqueles que insistem em manter diálogo mesmo quando sua cara não poderia estar mais afundada no celular como forma de telegrafar desinteresse.

Qual foi minha angústia, então, ao me ver do outro polo da situação. Recém saído do “tutorial”, peguei um casal e logo percebi que nenhum dos dois estava para papo. “Moleza, fico calado e garanto minhas cinco estrelas”. Alguns minutos depois, a animação do carro deslizando entre belíssimas ruas tingidas de neon roxo e azul dava sinais de que não iria simplesmente quebrar meu galho. É, eu ia ter que fazer a média. E, cara, que bom que o jogo fez isso. Caso contrário, teria passado batido por alguns dos diálogos mais bacanas e bem escritos dos últimos tempos.

É melhor fazer justiça logo: desenvolvido pela Chance Agency e lançado em 3 de outubro, Neo Cab está longe de ser só um “simulador de Uber sci-fi”, se destacando já no contexto temporal. Ao contrário das distopias comuns de jogos futurísticos, repletas de arranha-céus e regimes totalitários, ele te coloca em um período de transição, em um mundo e cultura claramente mais avançados que o nosso, mas sem muita coisa que já não role por aqui. Há policiais corruptos e uma espécie de Google Glass que funciona (pasmém), mas nada muito além disso.

Você encarna Lina, uma das últimas motoristas humanas do aplicativo Neo Cab em um mundo tomado por carros autônomos da Capra, uma megacorporação maligna que controla não só a malha viária da cidade, como também boa parte dos seus postos de combustíveis, hotéis, aplicativos e até contas bancárias. A protagonista, ela própria uma ex-funcionária da Capra que teve o emprego automatizado, abandona a vida quebrada na pacata cidade natal em busca de uma amiga de infância, Savy, na exuberante Los Ojos, uma recriação distópica de Los Angeles.

Não precisa ser um gênio para enxergar para onde a coisa vai – e aqui vão alguns spoilers extremamente leves –, e Lina acaba atraída por Savy para um mundo de conspiração envolvendo as autoridades e uma sociedade secreta que tenta sabotar operações da Capra. Toda essa trama, no entanto, é facilmente a parte mais desinteressante do jogo, se apegando muito a clichês do gênero e soando quase como se estivesse ali por obrigação, adicionada de última hora porque a publisher não aceitou um game sobre dirigir para o Uber. 

São nas corridas tocadas por Lina no aplicativo, na verdade, que o jogo faz o que faz de melhor. A cada noite, você escolhe entre uma série de possíveis passageiros que aparecem no mapa da cidade, todos eles com personalidades marcantes e pontos de vista bem diferentes sobre o que acontece em Los Ojos. Não existe “escolha certa”, e a diversidade de perfis é grande o bastante para que jogadores diferentes construam uma rota bem distinta de passageiros favoritos. No final de cada turno, você abastece o carro e escolhe um lugar para passar a noite.

Durante as viagens, você conduz uma conversa com o passageiro que ajuda a desvendar mais sua história e entender um clima de protestos generalizado na cidade, ampliado após um trágico acidente automobilístico tira a vida de uma jovem. Como meu dinheiro estava quase sempre contado para abastecer o carro e descolar uma cama para dormir, comecei o jogo pisando em ovos para não desagradar ninguém e garantir sempre aquelas cinco estrelas. Com o tempo, alguns passageiros começaram a se repetir e a coisa mudou totalmente de foco: como existia agora uma relação, eu tinha real interesse em saber mais sobre aquelas pessoas.

O sistema de conversas com passageiros é complexo e difere bastante dos clichês do gênero. São poucos, por exemplo, os “gatilhos” que podem levar subitamente um papo que vinha se desenvolvendo como amigável e interessante para uma briga entre você e o cliente. Em jogos narrativos como os da finada Telltale Games, é comum que o resultado das interações seja definido por uma ou duas “respostas-chave”, enquanto o resto parece ser só encheção de linguiça para preencher tempo de jogo. Aqui, não é isso que acontece.

As conversas fluem bem e o resultado de cada escolha fica muito bem registrado nas expressões dos rostos e olhos dos passageiros e da própria protagonista, todos muito bem animados e cheio de personalidade, com roupas e estilos próprios. Você precisa estar atento às mudanças na complexidade facial para se sair bem, o que, acredite, é sempre um desafio que torna a experiência bastante orgânica.

A personalidade da própria Lina também é um charme a mais. Em vários momentos, a protagonista se recusou a seguir um comando meu, ou até mesmo disse algo diferente do que estava escrito na opção que escolhi. Essa rebeldia, embora pareça um artifício para tanger a narrativa e torná-la mais linear, é apresentado com tanta personalidade no jogo que vira um ponto interessante. É como se Lina estivesse o tempo todo não só batalhando pelas cinco estrelas, mas também por manter certo nível de dignidade e respeito aos seus ideais.

E é nessa dinâmica, invertendo a perspectiva clichê de jogos com automóveis para olhar do para-brisa para trás, que Neo Cab brilha. Cada viagem  pode terminar em tranquilidade, surpresa, frustração, raiva ou num misto disso tudo. Algumas interações vão entre algo extraído de Black Mirror, analisando a relação humana com a tecnologia onipresente, a um trecho de romance cyberpunk, mas quase todas têm algo em comum: mostram como a humanidade consegue, quando quer, bem escrotinha.

No universo do jogo, fica claro o retrato de uma sociedade que silenciou, em troca das  conveniências do avanço tecnológico, diante da precarização das condições de trabalho, da invasão de privacidade e do autoritarismo. Uma situação com paralelo mais que óbvio na atualidade. E é aí que reside o caráter “distópico” de Los Ojos: se as ruas por onde você trafega são limpas, ordenadas e aparentemente livres de casos de miséria ou violência, é permanente a sensação de inquietação e tensão entre seus cidadãos.

O cenário é desesperador por várias razões. A primeira é que tudo isso parece puxado não por um aparato estatal opressor – embora a ostensiva e sombria farda da polícia de Los Ojos esteja bem próximo de algo que cause pesadelos –, mas sim pelas próprias relações de trabalho precárias, que levam o conceito de “uberização” ao extremo. Nas ruas de Los Ojos, vi gente que se cobria de câmeras e sensores para conduzir pesquisas de mercado e até “médicos” sem qualquer formação atendendo por um aplicativo à margem da lei – para não entregar mais situações criadas pelo jogo.

Na linha do tempo de retratada aqui, a humanidade parece ter se tornado submissa não a um totalitarismo Orwelliano, conduzido por um “grande irmão” autoritário e onipotente, mas sim por algo mais próximo do universo de Huxley, onde a própria passividade e egoísmo consumiram as relações humanas, ao ponto de os confortos imediatos da “uberização” falarem mais alto do que a própria busca por uma sociedade sadia. Se a Capra facilita minha vida, é cada um por si.

A própria total falta de segurança financeira da protagonista reflete isso e é um importante motor para os dilemas do jogo. Se um cliente pede para você esperar um pouco em um local de parada proibida, você concorda, sob o risco de multa, ou discorda, ainda que isso ameace sua avaliação? Se um passageiro que vomita no seu carro, você cobra uma indenização pela limpeza, ainda que isso provavelmente signifique levar uma avaliação de uma estrela depois? Diante de uma multa injusta, é melhor engolir o sapo e pagar, ou tentar um “agrado” ao policial?

Todas essas escolhas afetam o psicológico da própria Lina, que é refletido em uma pulseira “feelgrid”, um gadget que aponta em cores o que a protagonista está sentindo a cada momento. Se você abusa demais em mentiras e em trair seus próprios sentimentos, isso se materializa no jogo como respostas mais impacientes e duras para os passageiros, ou até no bloqueio de opções possíveis. Como os clientes são atentos e também podem ver sua pulseira, por vezes uma reação brusca pode afetar a conversa mesmo que você não tenha essa intenção.

Todas as noites, ao atingir a meta diária de passageiros, Lina se pergunta se deve obedecer seu próprio corpo e ir dormir, ou esticar mais um pouco o expediente em busca de uns trocados a mais. Em absolutamente toda vez, optei pela hora extra. Algo próximo do que faria na vida real, provavelmente. Nas pouco mais de três horas que levei para terminar o jogo, virei madrugadas ao volante só para ter o mínimo para uma cama mais decente e combustível, o coração vindo à boca ao menor sinal de qualquer sirene que pudesse trazer uma nova extorsão – e me levasse à falência de vez.

Constantemente recebendo informações de mão beijada dos próprios clientes, a Capra consegue se atualizar em novos produtos e manter relevância e controle, ao ponto de um protesto contra mortes no trânsito ser “sequestrado” por uma ação de marketing de distribuição de pulseiras feelgrid. Imagine que linda cena para um painel publicitário, centenas de pessoas em marcha, quase todas com um azul de tristeza refletindo no pulso.

Aparece aqui outra razão para desespero: se isso é ficção científica, foi-se o tempo que gênero precisava se lançar décadas ou séculos à frente para criar fantasias. Principal empresa do mercado de transporte por aplicativos do mundo, o Uber puxa desde 2018 um intenso processo de automação de seu próprio serviço. Em junho, a empresa lançou um novo modelo de carro sem motorista, que garante ser quase 100% a prova de falhas. A resistência ao modelo também já começou, com vários relatos de ataques aos autômatos registrados nos EUA.

Em relatório divulgado em maio, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), órgão ligado à ONU, avaliou que quase metade de todos os empregos existentes hoje podem ser eliminados, ou pelo menos radicalmente transformados, nas próximas duas décadas devido à automação. Segundo a OCDE, os efeitos atingem principalmente jovens e mulheres, estatisticamente com os piores empregos. E o que não for extinto pela automação, a julgar por hoje certamente será precarizado pela “uberização”. 

“Deixe de história, esse tipo de coisa só funciona para pequenos serviços, os trabalhos qualificados nunca serão atingidos”, retruca o brasileiro de classe média, com um diploma de Direito ou Engenharia no bolso. Nos Estados Unidos e na Europa, aplicativos como o Rocket Lawyer e a Pimlico Plumbers concentram cada dia mais o mercado legal e de serviços de reforma e manutenção, sempre trazendo na esteira a ausência de vínculos de emprego e o não pagamento de direitos trabalhistas, além das conhecidas condições precárias e remunerações irrisórias para os profissionais.

Os efeitos desse movimento já podem ser sentidos no mundo, em parte com a ascensão de líderes populistas que prometem “resgatar” o trabalhador de colarinho azul, como Donald Trump nos EUA e, até certo ponto, Jair Bolsonaro no Brasil. Se a ideia é mostrar mundos distópicos hipotéticos, os roteiristas de ficção científica vão ter que dar muito o gás porque a realidade já está dois passos à frente em termos de bizarrice.

Um dos principais pensadores sobre a interação entre cultura e trabalho, o italiano Antonio Gramsci falava da importância de uma resistência operária surgir a partir de uma disputa não de armas, mas de ideias. Para transformar a sociedade, ganhar espaço em campos do pensamento – como nas artes, escolas e faculdades – seria mais eficaz a longo prazo do que massacrar dissidentes. Com o contexto retratado em Neo Cab, fica claro que já passou da hora de o mesmo ocorrer nos videogames.

Em uma das várias corridas que fiz em Los Ojos, peguei um casal estrangeiro que estava convencido de que eu era, na verdade, um robô criado para dar a sensação de um motorista humano, porque “algumas pessoas gostam dessa sensação”. Determinado a provar minha humanidade, me submeti a um teste bizarro, de sete ou oito perguntas, com questionamentos envolvendo moralidade, senso de dever e família. “Um robô jamais passaria”, diziam. Ao final, os dois saíram do carro sem um resultado conclusivo.

Até agora, sigo matutando na cabeça. “E se?”

Neo Cab está disponível no Switch, no Steam, no Itch.io e na Apple Arcade