Jogue Dogurai ou vou estourar os seus miolos

Eu me aproximo sorrateiramente por trás e coloco uma arma na sua cabeça. “Jogue Dogurai, novo jogo de plataforma da Hungry Bear Games que saiu agora no Steam”. “Dogurai? Mas o que é isso?”, você questiona, desesperado. Eu engatilho a arma, o som seco te trazendo calafrios espinha abaixo: “Como assim o que é isso? Você não pegou o trocadilho? Dogurai.. Dog.. Samurai.. É hilário!”. Eu te empurro um laptop Positivo daqueles antigões.

“Sim, qualquer porcaria roda esse jogo”, resmungo. A tela se ilumina e a primeira coisa que você percebe é um jogo na pegada retrô, meio Ninja Gaiden meio Mega Man, mas com uma paleta de cores no estilo Game Boy Classic. “Ah não, essas paletas clássicas são sempre só gimmicks vazios para jogos fracos, um apelo barato à nostalgia dos anos 90”, você protesta, os músculos se contraindo em uma expressão contrariada de repulsa.

Eu atiro para cima. “Eu sei, geralmente é por aí mesmo”, a arma apertando cada vez mais forte contra a sua nuca. “Mas Dogurai consegue ser bem mais que isso. O design das fases é surpreendentemente divertido e inventivo, introduzindo novas coisas a cada fase”, digo, para logo depois reforçar: “Além do mais, o jogo foi feito por uma empresa independente brasileira. Apoie a cena nacional, seu vira-lata inútil”.

Você joga as primeiras fases e percebe rápido como Dogurai é bacana. Logo, começa a esquecer que o faz por conta de um sequestro-relâmpago. “Programado, desenhado e ‘musicado’ por só três pessoas? Isso é claramente o produto de uma união de paixões muito bonita por videogames”, você conclui. E é por aí mesmo: quase tudo que define o gênero está lá e é bem feito – chefes desafiadores, fases em veículo, aquelas malditas fases de gelo escorregadio. E a trilha, ó: Show de bola.

Como o nome indica, você controla Bones, um cachorro samurai, e pode abrir o amigo (ou companheiro; o jogo não especifica) Rider, que ataca com uma shuriken. A falta de power-ups ou habilidades além do ataque simples é deveras frustrante, mas o jogo tem tantos momentos em que você genuinamente ri com algum elemento bem pensado de design (o posicionamento de uma das colunas que podem te esmagar é hilário, para não spoilar muito) que isso fica fácil de lado.

Cada fase tem um “tema” com uma paleta de cores diferente e um conjunto de inimigos próprios. A linha de dificuldade também é boa, lembrando quase um Mega Man melee sem elementos masoquísticos do gênero, como aquelas plataformas que somem – é um jogo fácil de jogar, difícil de dominar. Para não falar que Dogurai é vazio de surpresas, o final me pegou de um jeito que eu tive que refazer o jogo todo só para cumprir um “achievement mental”.


Indie feito por uma empresa “mini”, Dogurai é claramente muito simples (não é nada que vá mudar sua vida), mas ainda assim é um jogo bonito e muito divertido – uma carta de amor ao gênero que vale cada centavo dos vinte contos cobrados pelo jogo.

Eu quero que Dogurai dê certo. Eu quero que a Hungry Bear Games tenha um sucesso que, mais que um queridinho cult, pague as contas e deixe eles livres para fazer outros jogos. Tem muito potencial aqui. Mas, até agora, o jogo tem só 19 reviews no Steam – e isso parte o meu coração. Mas é isso, desenvolver games no Brasil: pedir para que as pessoas joguem algo novo e desconhecido por vezes parece quase colocar uma arma na cabeça delas.

EPA. Falando nisso, cadê o sequestrador? Você olha para os lados. E não vê nada. Reconstruindo os acontecimentos na sua mente, você percebe que está sozinho e que a arma sempre esteve na sua própria mão. Na verdade, a arma era um cartão de crédito. Você  comprou Dogurai porque quis, ninguém te obrigou a nada . Não há sequestrador: você e ele sempre foram a mesma pessoa. Você não se arrepende de nada.

A REVIEW BY HIDEO KOJIMA

Dogurai está disponível no Steam por R$ 20