Hollow Knight é o seu melhor aliado para a quarentena

Preciso começar isso com uma confissão. Quando criança, eu não gostava de Mario. Achava um jogo limitado, talvez bobo. O que o Mario faz? Ele pula. E como o Mario resolve seus problemas? Pulando. Viu um inimigo, aperta o B, acerta a cabeça dele e fim. Buraco? B. Chefe? B. Tudo era resolvido com esse botão. Poderia ser o outro botão de pulo também. O Mario tinha dois botões para pular, depois ele ganhou um botão pra pular girando. 

Mas aí você vai me falar da flor, da pena, do rabo do texugo. De fato, o Mario fazia outras coisas, até ele tomar um ataque. E ai, voltava pro pulo. Eu sentia que faltava algo. Nessa época, até de Kirby eu gostava mais. O Kirby tinha dezenas de formas, e se você tomasse um ataque, era só sugar a estrela e lá estava você de novo, soltando fogo, gelo ou dando suplex. O Mario não podia chupar a flor depois de tomar uma lapada. Demorou um tempo até eu conhecer outros jogos como Zelda ou Metroid, que me davam outras maneiras de abordar situações diferentes, antes disso eu era só fã do Kirby. 

Hoje em dia eu aprecio muito mais o nosso encanador, e acho até injusto julgar ele pela sua simplicidade, especialmente considerando que ele é o famoso Homem Pulo(Jumpman.) Mas desde sempre eu gostava de ter opções, de jogar do meu jeito. Obviamente eu não conseguiria apontar que era isso que eu buscava quando tinha sete anos de idade e acesso semestral a uma loja em uma cidade levemente maior do que a que eu cresci. Imagina? Chega o prodígio na Importadora Rainha, pedindo um jogo com várias formas de se expressar. Não iria muito longe na vida esse jovem rondoniense. 

Ironicamente, depois dessa tangente, vou acabar falando de um jogo em que você basicamente só bate com uma agulha. Mas Hollow Knight é mais do que só o que fazem os botões ao serem pressionados. Se trata de se expressar como jogador em um mundo que lhe dá a liberdade de exploração. A chance de se perder e fazer as coisas como você quiser, na ordem que você conseguir.

O Cavaleiro salta sobre um inimigo em Greenpath

Sim, os combates são direto ao ponto. Mas até mesmo a velha agulha do cavaleiro traz várias possibilidades. Atacar pra frente, pra cima. Atacar para baixo enquanto pula pode te fazer ricochetear. Maneiras simples de deixar todo combate diferente e interessante. Você pode se especializar em combates aéreos, virar um mestre da agulha que nunca mais encosta no chão. Ou deixar isso pra lá, usar suas magias para derrotar inimigos e chefes sem nem precisar chegar perto. Toda estratégia é válida, mas é claro que eventualmente você será desafiado e retirado da sua zona de conforto. Nem todo inimigo aceita a sua forma de expressão em luta.

Impressiona também como o número relativamente baixo de melhorias e habilidades novas consegue ser extrapolado ao máximo. Até mesmo a mais simples espadada para baixo consegue ser utilizada como uma forma de ultrapassar obstáculos do cenário. Quantas vezes eu não achei que estava burlando o jogo para pegar algum coletável? Me sentia um elite gamer™ ao passar por desafios de plataforma usando o mínimo de ferramentas possível. Mas a criatividade do design dos níveis sempre me pedia um pouco mais.

Tudo bem, porque sempre que eu fazia algum progresso e ia pra uma tela nova, as coisas valiam a pena. Os cenários são lindos e variados e suas trilhas apesar de discretas, ajudam a compor cenários vivos e ao mesmo tempo, melancólicos. Um mundo ultrapassado, deixado às traças, mas ao mesmo tempo, exuberante. 

Desenvolvido pela Team Cherry, basicamente duas pessoas, falo aqui da maior fonte de esperança e ao mesmo tempo de desespero para qualquer aspirante a profissional da indústria de jogos. Sempre que você duvidar de si mesmo, lembre-se, duas pessoas fizeram esse jogo. Mas vai bater o desespero porque tu vai pensar “Como diabos duas pessoas fizeram isso? Eu nunca vou conseguir fazer algo assim”. Faz parte, o melhor que a gente faz é não comparar nenhum jogo indie com Hollow Knight. Nunca. 

O Cavaleiro ataca um enorme inimigo

Não só pelo conteúdo, que é absolutamente imenso. Mas pelo cuidado e atenção com cada elemento dessa jornada de mais de quarenta horas pela subterrânea Hallownest. Todo inimigo tem seu charme, todo cenário tem polimento. O mapa dialoga com você. Te diz pra onde ir, te ensina a lidar com seus habitantes. Te conta uma história. Sem nunca deixar de te surpreender e te recompensar. É fascinante como a existência de um lugar tão vasto consegue ser tão bem contextualizada. Divisões políticas, biologicas e históricas. Quem diria que esses insetinhos seriam capaz de ter relações tão profundas entre si? 

Talvez você não tenha jogado o jogo, e esteja neste exato momento olhando para imagens dele e pensando que eu tô maluco. Talvez você já tenha jogado o jogo e esteja pensando a mesma coisa. Isso faz parte da magia. Aqui você joga como quer e não prestar atenção nessas coisas é uma abordagem totalmente válida. Lê a historia quem quer, faz 100% do mapa se estiver afim. Completa 112% do jogo e faz os seis finais só quem estiver muito apaixonado mesmo. Que pode ou não ser o meu caso. Deixarei essa no ar. 

E mesmo assim, essas porcentagens malucas aí que passam de 100 sem vergonha nenhuma não compreendem todo o escopo dessa obra. Porque pra tudo existe um contexto, um detalhe. Ou até mesmo objetivos a mais. Modos de permadeath, quests opcionais, múltiplas conclusões para missões. Eu juro que não to inventando isso. Hollow Knight é um jogo que quer ser muito mais. Uma dessas flores que crescem em calçada, desafiando a lógica da nossa sociedade. Se for enumerar tudo que dá pra fazer nesse jogo e estabelecer uma porcentagem, dava pra chegar em 418%. Ou 100% mesmo, que é o que faria sentido, mas as leis da lógica não se aplicam a porcentagem de jogo, assim como os princípios de produtividade e economia não se aplicaram a esse desenvolvimento.

O Cavaleiro e seu amigo Quirrel encaram um dos sonhadores, que repousa em suspensão dentro de um tubo.

Mas conteudo não é tudo. E quando se trata de qualidade e de diversão, estamos falando de termos relativos e pessoais. Para alguns, Hollow Knight peca pelo excesso. A sensação de vastidão do mundo serve apenas como um desmotivador.  Você se perdeu de novo, tem outro chefe que você não tá afim de morrer pra aprender a passar. E faz parte. Você pode se expressar até não jogando. Não comprando. Apesar de que o preço padrão desse jogo chega a ser uma covardia. 

E nesse momento que estamos vivendo, eu precisava de distração. Ficar trancado em casa por conta da quarentena é um exercício pesado para nossa sanidade. E graças a Hollow Knight, eu conseguia sorrir e esquecer um pouco dos meus problemas, então esse excesso é exatamente o que procurava. 

Quando pequeno, eu cansava de dar os mesmos pulos, mas eu não tinha muitos jogos. Então eu passava meu tempo fazendo aquilo ficar interessante, fazia meu tempo valer. Mas eu sempre sonhei com um jogo tipo esse aqui. Demoraram alguns anos, mas eu acho que encontrei algo que combina 112% comigo.