Forager é tipo um filho bastardo de Zelda e Minecraft

Mecânicas de crafting são como quiabo: ou você gosta, ou acha asqueroso e se pergunta por que diabos as pessoas insistem em meter a coisa num contexto que passaria perfeitamente bem sem ela. Pessoalmente sempre fui mais do segundo grupo, dos que preferem o prato livre de sementes babonas – e jogos de qualquer artesanato. Isso tem virado até certa fonte de frustração nos últimos anos, depois que mecânicas do tipo passaram a parecer obrigatórias por lei em qualquer lançamento grande (mesmo quando só tornam o jogo mais chato).

A coisa começou a mudar de cara com um dos meus jogos favoritos do ano passado, o belíssimo Subnautica. Além do contexto aquático único e do universo megacriativo, me chamou a atenção que o jogo não usava o foco em crafting para simplesmente abrir mão de contar qualquer história – como de praxe no gênero. É um sandbox centrado em combinar coisas, mas com um enredo bacana e que tem início, meio e fim. Desde então, venho tentando comer mais quiabo por aí, nem que só para ver qual é.

Metáforas horríveis à parte, minha mais recente aventura pelo gênero me levou ao carismático Forager, um survival nascido de uma game jam e lançado em abril pelo Humble Bundle. Todo em pixel art e 2-D, o jogo parece o produto de uma noite alucinada entre Minecraft e os Zeldas de Nintendinho. A ideia é exatamente essa que você está pensando: você quebra coisas, pilha os materiais e usa isso para criar coisas mais brilhantes em forjas. Com coisas brilhantes, compra mais espaço para quebrar coisas maiores. Você clica, clica, clica e clica de novo.

Todos os elementos clássicos do gênero estão lá, desde a barra de “fome”, a fusão entre ouro e ferro para criar aço e até os insuportáveis plásticos que pedem uma dezenas de ingredientes para serem feitos. Todo recurso é abundante e reaparece rápido, então você quase nunca se preocupa com nada. Junte vários e você pode dar um up em sua picareta, mochila, etc. A ideia de quebrar pedras em lugares fechados pode ser muito próxima da descrição de uma prisão (menos os esfaqueamentos), mas há surpresas o bastante para tornar a coisa interessante.

Talvez a maior venha lá pelo meio do jogo, quando você começa a construir lasers e robôs para automatizar cliques, te deixando livre para.. clicar outras coisas. A partir daí, Forager fica parecendo mais aqueles idle games que fizeram fama alguns anos atrás em sites de jogos em flash, como o Kongregate. Pode até ser alguma neurose, mas há algo de muito gostoso em minimizar o jogo e, passadas algumas horas sem fazer nada, ver o árduo trabalho dos outros trazendo materiais saindo pelo ladrão. Finalmente entendo os capitalistas.

A outra surpresa bacana é que, depois de abrir algumas ilhas, você começa a encontrar dungeons com muitos puzzles, inimigos mais complexos e até chefões. O foco passa a ser a ação, e aí é inevitável comparar com os clássicos Zeldas – até o sistema de corações e a navegação entre as telas funcionam no mesmo estilo da série. Uma mistura de estilos curiosa e bem orgânica aqui, nunca parecendo algo feito só para “agregar valor” ao produto final.

Eu quero gostar de Forager. Eu quero dizer (principalmente depois de ler a comovente historinha por trás do desenvolvimento do jogo) que ele vale os R$ 37,99 cobrados no Steam (preço que, cá entre nós, tá caro pra c@$*#%). Mas tá difícil. Lembram do que falei ali em cima sobre o que me fez gostar de Subnautica? Forager não tem nada disso. Mais uma vez, não há história ou nenhum contexto para nada, quase todo personagem no mundo parece existir apenas para dar fetch quests e abrir novas opções de crafting. Voltamos à estaca zero.

Quando Minecraft saiu, a ideia de um grande mundo aberto, onde o jogador ficava totalmente livre para explorar e ir testando elementos, ainda era pouco explorada e instigante (lembra do susto da primeira vez que você incendiou alguma coisa sem querer?). Dez anos depois, todo jogador mais experiente já carrega uma lista com dezenas de prováveis combinações entre elementos na cabeça e o mundo tem milhares de youtubers e livros sobre o assunto para odiar. O apelo e o frescor da coisa já não são mais os mesmos.

A ausência de qualquer narrativa não faz, por si só, Forager ser ruim. O negócio é que, fora a jogabilidade viciante (mas que até nisso em pouca coisa foge dos modelos do gênero), o jogo tem poucos atributos marcantes ou que se sobressaiam às centenas de jogos parecidos nas mais diversas plataformas. Não é nada terrível, é só um quiabo. Simpático à primeira vista, o mundo de Forager não evolui e acaba sendo só um amontoado de clichês de jogos indie em pixel art (nem tudo que é fofo e quadriculado tem que ser carismático).  

Se você gosta de sandboxes com foco em crafting, provavelmente já sabe exatamente como Forager funciona e com certeza vai se divertir bastante com ele. Ainda assim, são grandes experiências com mais alma, como Subnautica e Don’t Starve, que vão ser lembradas e recomendadas aos amigos no final do dia. A busca por novos títulos continua.

Forager está disponível via Steam, Humble Store, GOG e também no Nintendo Switch