Draugen e a nossa busca por conclusões

Foi no meio da última temporada de Game Of Thrones que o caldo da série começou a azedar, com pessoas achando que ela seguiria um rumo semelhante a Lost.

Sabe Lost? Um dos primeiros fenômenos culturais da TV na época da conectividade, que levava a galera discutir com fervor o que iria acontecer. E hoje, são apenas lembranças do que, para muitos, teve uma conclusão terrível e que não respondeu mistérios considerados importantes.

Se o fechamento do arco de Jon Snow e cia vai entrar no anais como algo bem ruim, só o futuro dirá. No momento, a opinião coletiva é que os criadores da série deveriam se aposentar tipo agora.

Isso diz muito sobre como nós, enquanto consumidores, queremos um bom fechamento para os nossos filmes, séries, quadrinhos, jogos. Embora a qualidade em si seja subjetiva, não são impossíveis finais onde todo mundo curtiu, tipo Breaking Bad, Mad Men e até Sopranos.

Mas por que se importar tanto com o final se “o que vale é a jornada até ali”, diria alguém em tom defensivo.

Embora seja uma discussão sem fim, jogar Draugen me faz questionar essa nossa busca por fechamentos.

Estamos em 1923, onde Edward e sua companheira Alice saem em busca de Elizabeth, irmã mais nova dele, que desapareceu. Partem de Hanover, Massachusetts, para a vila costeira fictícia de Graavik, no final dos fiordes nórdicos.

Lá, eles estão hospedados na casa dos Fretlands, onde a matriarca da casa, Anna, presta apoio para a busca de Edward.

Assim a narrativa tem o foco com o paradeiro de Elizabeth, mas constrói também histórias sobre a família Fretland e os habitantes de Graavik.

Draugen é uma experiência narrativa bem única porque ela abandona alguns elementos geralmente associado a jogos. Não existe inventário, menu detalhado com objetivos da missão ou botão para ataque: apenas um para correr e o resto dos movimentos são realizados com o mouse. Mas isso não significa que o jogo seja só andar por aí, você interage com objetos e o cenário, como sentando para desenhar uma paisagem bonita.

Esses desenhos ficam guardados por Edward em um diário, que é um elemento bem utilizado em diversos outros jogos, mas aqui fico me perguntando qual a sua verdadeira finalidade além das ilustrações. Isso porque ele não guarda os documentos adquiridos ao longo da jornada ou escreve seus pensamentos internos, então a coisa funciona apenas como um mapa de locações importantes.

Os momentos em que se pode desenhar são os mais calmos, já que, com o desenvolver dos mistérios, as interações entre os dois personagens principais fica bem intensa.

Por mais que você controle Edward, ele tem vida própria. Ocasionalmente você faz pequenas escolhas de diálogo que dão um certa direcionamento de como quer que ele se comporte perante Alice.

A dinâmica entre os dois é bem viva. Apesar de não estar bem claro qual o tipo de relacionamento que eles possuem, fica nítido que existe ali uma intimidade, até pela maneira em que eles conversam. Desde Firewatch não via personagens tão comuns, reais e interessantes, onde o mérito também se dá pela ótima dublagem de ambos.

Apesar de Alice em dado momento despirocar sem um motivo muito claro na narrativa, ela serve como um belo contraponto ao seu companheiro. Enquanto é animada, divertida, curiosa e pronta para aventura, Edward é comedido, pragmático, sério e não entende muito bem piadas.

Além disso, enquanto inteligência artificial dentro de um jogo, a protagonista feminina é mais viva e livre do que o padrão. Você consegue sentir que ela está ali para acompanhar a busca por Elizabeth, ao mesmo tempo que está curiosa sobre o que aconteceu com Graavik.

As vezes em que o jogador deve interagir com Alice são pontuais, onde palavras vão aparecer na sua frente e você precisa escolher aquela que no momento reflete a situação. Logo embaixo, há uma breve descrição do que elas significam psicologicamente para Edward.

E pontual é algo que define muito bem Draugen. Ele não perde tempo com nada, até mesmo com as outras histórias que insere em paralelo: todas as ferramentas necessárias para entender como aquilo começou e seu desenrolar estão disponíveis. Nada é escondido e o enredo, bem construído, incita a exploração. Ao terminar o jogo, dá para entender o que ele quis dizer e o que de fato aconteceu.

Na verdade, dá para entender mais ou menos. Com a busca pela irmã, existe um tema, algo a ser contado, algo fechado (o que é melhor deixar vago, para não entrar em spoilers). O resto da sub-tramas chegam a um ponto em que os personagens chegam à conclusão de que tanto faz ter conclusão.

Na superfície, isso é ruim: qual o intuito de criar um suspense e ir desenvolvendo minuciosamente uma narrativa sobre os acontecimentos da cidade, se você não os termina? E essa falta de fechamento cria um questionamento se ela de alguma maneira diminui a jornada até aqui.

A resposta é não. Demorei para ficar confortável com isso, digamos até que não estou totalmente confortável ainda. Mas estamos diante de um caso raro, onde tá tudo bem. É difícil chegar a uma conclusão sobre isso, mas, além dos temas apresentados na trama de Elizabeth, Draugen trata também sobre a nossa busca por uma solução final.

O jogo, através de Alice e Edward, fala sobre a falta de conclusões sobre o mistério que acompanharam. E não trata como um vazio, mas de como está tudo bem se preenchermos as lacunas da história com a nossa imaginação. Pode parecer meio preguiçoso colocar nas mãos do jogador que ele interprete aquilo que viu, mas até agora estou surpreso como isso não é o caso aqui.

Quanto mais tempo penso sobre os momentos finais, mais sinto falta de uma explicação do porquê X e Y aconteceram. Mas recebemos uma conclusão sobre Elizabeth, então em teoria tá tudo tranquilo como um esquilo.

Com o tempo, eu tenho me importado mais com a experiência como um todo do que como ela termina, isso com qualquer coisa que eu consumo. Draugen foi o primeiro jogo que me fez pensar sobre isso: será que devemos mesmo colocar nossos esforços pela busca de uma conclusão que nos satisfaça?

Na nossa cabeça sempre vai ser melhor e quem sabe se realmente aquilo que foi entregue seria realmente a resposta satisfatória? Tenho nas mãos as ferramentas necessárias para tirar minha próprias conclusões e, nesse contexto, é mais confortável assim.

Podem acusar de preguiça, construção errônea na narrativa. Seja o que for, Draugen é uma experiência direta ao ponto sobre absorver a jornada que vivemos. E que jornada.

Draugen está disponível para PC pela Steam e GOG.

A cópia foi cedida pela Red Thread Games.

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