Children of Morta, Roguelite em família.

Children of Morta é o novo jogo do estúdio Dead Mage, que com seus elementos de roguelike chamou bastante a atenção nos últimos dias. Pessoalmente, não sou muito fã desse estilo. Ao jogar um roguelike, as vezes acabo me sentindo em um loop, o que retira um pouco a sensação de progresso. 

São jogos com runs muito isoladas, focados em morte permanente, que te fazem começar tudo de novo após alguns erros e que insistem em randomizar ao máximo a experiência acabam por misturar as partidas na minha cabeça, não criando nada memorável, apenas dando a sensação de que faço a mesma coisa, de novo e de novo.

Children of Morta é o novo jogo do estúdio Dead Mage, que com seus elementos de roguelite chamou bastante a atenção nos últimos dias. Pessoalmente, não sou o maior fã desse estilo. Ao jogar um algo desse estilo, as vezes acabo me sentindo em um loop, o que retira um pouco a sensação de progresso, mesmo que de pouco em pouco eu desbloqueie novas mecânicas e aprimore passivamente o meu personagem.

Jogos com runs isoladas acabam retirando um pouco do peso das consequências de uma possível história que poderia me envolver. Mesmo que os elementos de randomização sejam reduzidos, ainda me vêm a sensação de que o meu personagem é um amálgama de itens e bônus encontrados aleatoriamente, o que podem gerar uma experiência prazerosa ou não. E  prefiro não deixar a minha diversão ou estilo de jogo nas mãos de uma rolagem de dados. Mesmo que eu faça algum progresso, ainda sou um refém do ciclo do jogo, tendo de repetir as mesmas coisas, de novo e de novo.

Children of Morta é o novo jogo do estúdio Dead Mage, que com seus elementos de rogue…

Ok, acho que deu pra entender.

O que temos aqui é muito mais do que esses truques emprestados. A história da família Bergson não poderia ser mais cativante, e as consequências da narrativa me lembram constantemente que isso não é só uma experiência mecânica. Sua temática bem resolvida, que combina totalmente com a premissa de um RPG de ação cria algo coeso, completo e sem dúvidas, divertido.

A Familia de Children of Morta, Reunida em volta de uma mesa de jantar.

Hoje em dia é difícil relacionar reuniões familiares com diversão. Em 2019, família é bom dia no grupo do whatsapp e briga pra saber quem se serve primeiro no almoço. Que escapismo maravilhoso é se reunir com sua família para enfrentar uma entidade que pretende corromper o mundo e destruir a natureza. Sendo que no mundo real você com certeza ia ter familiares defendendo essa entidade. 

Pera, acho que acabei perdendo uns possíveis leitores. Vamos tentar de novo.

Children of Morta é o novo jogo do estúdio Dead Mage. E que por mais que existam elementos de roguelite, cada run é significante e aprender a usar seu personagem é totalmente necessário.

 Para cada estilo de jogo, existe um membro da família Bergson para te agradar. Estilos básicos de ataque e defesa com o pai, John, até a fragilidade letal do filho mais novo, Kevin. Até mesmo os upgrades são obras caseiras, graças ao ferreiro, o Tio Ben, que não toma um tiro para te ensinar responsabilidade e nem desaparece além da muralha por seis temporadas para voltar como um zumbi girando um mangual pegando fogo que morre sem dar explicações.  

Devaneios à parte, o elenco cativante é certamente um ponto. Dos jogáveis até aqueles que apenas estão ali para te passar uma sensação de familiaridade, de lar, como a matriarca da família, Margaret, que entende os segredos da montanha de Morta melhor do que ninguém. Ver o dia amanhecer e ir procurar pela casa o que cada personagem está fazendo é sempre divertido. Ver parentes treinando juntos, ou conhecer eles por seus outros hobbies, como Linda que adora cantar, ou Mark que apesar de ser um ninja maneiro, preferia estudar plantas medicinais ao invés de sentar a peia nas pessoas. Com seus visuais simples, porém cheios de personalidade, os Bergson se tornam uma icônica party de RPG com motivos de sobra para se ajudarem.

Com algumas habilidades ativas e passivas, cada pessoa nessa família de guardiões é totalmente capaz de se virar sozinho. Mas é justamente na união em que o jogo brilha mais.

Um nivel de Children of Morta, mostrando um moinho de vento em uma cidade desértica.

O grande divisor de águas na minha experiência foi quando eu, despretensiosamente, virei para minha namorada e perguntei se ela queria jogar. Antes disso, minha experiência tinha sido um pouco tediosa. Antes de liberar a grande parte das mecânicas o combate parecia limitado, e repetir as mesmas estratégias tediosas era o que funcionava. Mas após uma rápida discussão sobre quem ia ficar com o controle com a luz rosa, que eu eventualmente ganhei, nós começamos uma jornada juntos pelas cavernas de seda. E após apanhar muito no que seria basicamente o nível mais fácil do jogo, nós conseguimos nos coordenar, e rapidamente os high fives começaram a voar, enquanto inimigos morriam pelas dezenas. 

Infelizmente, o jogo só oferece um cooperativo local, uma pena para uma experiência que brilha tanto nesse modo. Especialmente quando a temática de Children of Morta pede, implora, por essa conexão. Não que a campanha seja ruim, o jogo equilibra muito bem os dois métodos, e aqueles elementos de roguelite, pegar itens aleatórios, runas e bônus passivos são mais claros nesse modo. Afinal, você está afunilando todos esses elementos em um personagem só, criando combinações que podem potencialmente trivializar combates.

Mas mesmo com um foco em aumentos passivos, afinal no final de cada jornada você está gastando seu ouro para melhorar estatísticas, Dano, vida, chance de esquiva, etc; As habilidades do jogador não são deixadas de lado. Saber lidar com os variados tipos de inimigos, conseguir fazer uma boa esquiva e até mesmo entender o cenário para conduzir hordas por corredores apertados, transformando qualquer beco em uma Termópilas e eliminando inimigos as dezenas sem que eles consigam te machucar.

Um pequeno lobo, ao lado do cadáver de um lobo maior, cercados por inimigos


O melhor de tudo isso é o contexto. A sensação de urgência ao se aventurar pelos belíssimos cenários de Pixel Art te motiva e te guia. Não é sobre coletar poderes, é sobre salvar aquele filhote de lobo que a jovem Lucy tanto gosta. É sobre salvar os espíritos filhos do grande deus maligno também, mas quero salvar o mundo porque a casa dos Bergson por acaso está nesse planeta.

Children of Morta é uma história sobre famílias, sobre união. E ver um jogo tão divertido juntar sua jogabilidade com sua temáticas é sempre um prazer. Por mais que a experiência não seja perfeita, seu escopo menor faz com que suas falhas sejam negligenciáveis, e seus acertos brilhem forte. Com um preço bacana e legenda em inglês, o maior empecilho talvez seja convencer alguém a jogar contigo. Mas se você der sorte nesse roguelike chamado vida e tiver alguém para dividir essa experiência, vai fundo.

Atualmente Children Of Morta está disponivel para PC. Futuramente também para PS4 e Nintendo Switch.
Cópia para analíse foi cedida pela 11 bit studios