Baba is You me lembra do por quê gosto de videogames

Um dos meus primeiros casos de amor com videojogos foi Sokoban. Isso, aquele game arcaico de empurrar caixas que hoje é mais um gênero que um título específico. Era a alvorada dos anos 1990 e meus velhos costumavam vez por outra arrastar a gente (a muito contragosto) para a casa de um tio do interior, desses sem filhos da nossa idade nem nada que preenchesse o vazio do Master System deixado para trás.

Diante da revolta constante da criançada, o cara deu seus pulos e descolou um 486 pancadão, daqueles PCs jurássicos que marcaram época no Brasil. O bicho não era nenhum Nintendo, mas compensava a tosqueira bicolor (quase tudo era rosa e azul bebê) com a biblioteca bem honesta de jogos e aquela aura inigualável de se jogar em uma “supermáquina”. Prince of Persia, Karateka, aquele jogo mazela de corrida em que você mesmo fazia a pista.

E Sokoban.

A premissa era simples: você era um operário e tinha que empurrar um número X de caixas até espaços específicos de um “armazém”. Grifo empurrar porque não era possível puxar nada, o que elevava bastante a complexidade da coisa. Forçou uma caixa contra uma quina? Lascou. Sem querer empurrou duas caixas uma contra a outra em um canto da fase? Vixe, só indo do  zero. A cada nível, o número de objetos ia aumentando em P.G. e a parada ia ficando tensa.

Soa limitado hoje, mas era o bastante para fazer a molecada se revezar e espernear em frustração diante dos estalos do 486. Caixa por caixa, era como se pintássemos uma figura rupestre nas paredes daqueles fins de semana intermináveis. Sobravam razões para gostar do jogo, tipo as inúmeras formas diferentes de resolver o mesmo puzzle (o que fazia a gente competir pela solução mais rápida) ou a satisfação de uma vitória apertada.

Mas a mais impressionante, sem dúvida, era o volume absurdo de conteúdo. Nas maratonas na casa do tio, ninguém foi fodão bastante para “fechar” Sokoban. Empurrar caixas só pode dar muita grana: sério, o jogo era interminável, ao ponto de gerar lendas com números mirabolantes entre a gente. Anos depois, quando o game voltou a cruzar minha vida (naqueles Nokias tijolões ou no minigame mazela da Sky), fui saber que o original tinha 50 (!) fases.

Pule aí duas décadas. Super Mario World veio para esmagar nossas expectativas com o tamanho dos jogos. Nas muitas transições que o design de videogames passou nesse tempo, expandimos e reaprendemos a amar puzzles (Myst), a odiar eles (aquelas malditas torres de Hanoi que todo. jogo. da Bioware. tem) e a amar de novo (The Witness, no exemplo mais recente).

Corta para março de 2019 e temos Baba is You, segunda empreitada da finlandesa Hempuli Oy (do desconhecido Environmental Station Alpha). Lançado para PC e Switch, o jogo é uma espécie de Sokoban onde o jogador vai reescrevendo as regras enquanto joga. Não faz sentido perder muito tempo explicando, visto que é bem mais fácil ver o curto (e delicioso) trailer que o próprio criador fez para as mecânicas do jogo.

Na teoria é simples: na maioria das vezes, você controla “Baba” (uma ovelhinha minimalista) até um objetivo qualquer, como uma bandeira ou uma porta aberta. Além dos objetos do cenário, você empurra um conjunto de regras que ditam como aquela fase funciona. Isso pode ir desde alinhar “ROCK”, “IS” e “PUSH” para poder mover uma pedra a até remover o “STOP” da frase “WALL IS STOP” para atravessar as paredes do cenário.

Algumas regras são fixas, localizadas em espaços fechados fora do seu alcance, mas a maioria pode ser alterada livremente pelo jogador. Nada é fixo aqui, nem mesmo seu personagem (“BABA IS YOU”). Até “FLAG IS WIN” pode ser alterada para “ROCK IS WIN” para transformar qualquer pedra no objetivo ou “BABA IS WIN” para uma vitória instantânea. Infelizmente, o jogo não faria muito sentido em português e exige um nível, ainda que básico, de domínio do inglês.

Como tudo é maleável, boa parte do tempo você fica quebrando a cabeça para descobrir o que diabos o jogo quer que você faça. Se paredes que te separam do objetivo são obrigatoriamente obstáculos, você vai precisar arrumar um jeito de destruí-las ou de trazer o seu alvo para fora delas. Entender isso leva tempo e uma boa dose de tentativas frustradas (que o jogo é bacana ao oferecer um “control + Z” e deixar que você resete a fase rápido e com um único botão).

As fases são criativas e deixam a cabeça do jogador livre para explorar. Assistindo vídeos de streamers, foram vários os momentos em que me surpreendi com a forma que eles resolveram um ou outro puzzle. “Ele transformou as paredes em chaves, esperto”. Mas nem de longe o que eu fiz. Em tal hora, você faz tanta maluquice que se pergunta se aquilo era mesmo necessário ou se, em algum lugar, alguém mais inteligente resolveu aquilo em três minutos.

Se você nunca tinha ouvido sobre o jogo e gosta de puzzles, provavelmente já está maravilhado pela premissa dele (a ideia é tão gostosa que eu menti para você e expliquei o jogo mesmo depois do trailer). Nos últimos anos, no entanto, não tem sido raro que mecânicas (ou “gimmicks”) interessantes ou únicas acabem dando em jogos “passáveis”, que não empolgam nem sustentam o interesse numa experiência mais duradoura.

Mas pode ficar sussa: não é o caso aqui. Se a mecânica das regras atrai, o que conquista é o level design excelente do jogo. Simples no início, Baba is You tem um mapa dividido por “mundos” no estilo Super Mario World, que vão adicionando novos elementos e deixando a coisa cada vez mais complexa e interessante. Isso não significa, porém, que você precise ser um gênio ou capaz de lidar com cargas gigantes de frustração e dor de cabeça.

Mecânicas novas são sempre introduzidas sutilmente, com fases fáceis com o objetivo de “ensinar” o jogador a usá-las. E como cada mundo só exige que você vença mais ou menos um terço dos desafios, quase sempre há espaço para pular níveis mais difíceis. Ao menos nas primeiras horas de jogo, há fases simples e “margem de manobra” suficientes para evitar que você empaque logo de cara (não, você não vai se sentir desperdiçando dinheiro).

Tal hora a coisa meio que sai do controle

E, como nos tempos áureos do 486, é simplesmente absurda a quantidade de conteúdo aqui. Por R$ 28,99 e com a qualidade e criatividade de cada fase criada, aliás, é quase um roubo. Não vou mentir que terminei o jogo (ainda mais com ele saindo em cima de Sekiro), mas, nas pouco mais de quinze horas que investi nele, foram vários os momentos de genuína surpresa com o quanto ele era capaz de se reinventar a cada nova “regra” introduzida.

No final do jogo, o número de possíveis combinações de sintaxe é tão absurdo que é difícil não dar um nó na cabeça a cada novo mapa aberto. Mas, se você chegou tão longe, provavelmente já está viciado e não se importa.

Nos anos 1990, socava incrédulo o teclado ao descobrir que alguma fase do Sokoban – em que eu havia acabado perder algumas horas – não era a última do jogo. Agora, quase três décadas depois, Baba is You joga coisas após coisas na minha cara e resgata a mesma sensação de ir do “nunca vou solucionar isso” para o “PUTA MERDA EU SOU UM GÊNIO” em poucos segundos. E isso continua tão bom quanto era no 486.

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