ATOM RPG é um Fallout comunista na URSS pós-apocalíptica

Que tempos foram os primeiros anos da década de 90. Restrita a porões de bases militares, a internet enfim chegava às residências comuns mundo afora. Os anos de chumbo da Ditadura Militar brasileira já soavam uma memória distante, com o caretismo da censura na TV dando lugar a um mar de programas de auditório bizarros e ex-atrizes de pornochanchada. Após anos de remendos e revisão de políticas, a União Soviética chegava ao fim, encerrando cinco décadas de Guerra Fria.

Nenhum desses marcos históricos jamais ocorre no universo de ATOM RPG, primeiro e único filho da produtora letã AtomTeam. Lançado no Kickstarter em abril de 2017, o jogo juntou US$ 33 mil – mais que o dobro da meta de US$ 15 mil – e foi lançado, após quase um ano em acesso antecipado, em 12 de dezembro passado. No game, o conflito entre ocidente e a URSS levou o mundo à guerra nuclear em 1986 – mesmo ano em que começava no Brasil a rivalidade entre TV Fofão e Xou da Xuxa.

Agora que se foi o básico, talvez seja hora apropriada de encarar o elefante na sala: Sim, ATOM RPG é muito Fallout. É Fallout pra caramba. Uma olhada de relance em qualquer das capturas de tela e, caso você tenha jogado qualquer dos dois clássicos da Interplay, sabe que tem alguma coisa pegando. Cinco minutos no jogo, você já sabe que o processo de criação de personagem segue basicamente as mesmas regras dos dois Fallouts clássicos. Tudo de propósito.

Sobram referências inesperadas

Reversal russa

Enquanto nos games originais o jogador percorria os escombros de uma América decadente, em ATOM RPG o cenário são as ruínas da potência soviética, permeadas por saudosistas da Guerra Fria e antigos burocratas do regime socialista. No enredo base, você encarna em um integrante da enigmática ATOM, uma organização secreta e militarista – sim, é basicamente a Brotherhood of Steel de Fallout – que te manda descobrir o paradeiro do misterioso general Morozov.

Assim como nos clássicos, a história é só desculpa para a exploração de um vasto mundo aberto e sem muitas regras. E aí as referências ao jogo da Interplay só se multiplicam: logo na primeira parada, há uma pacata vila tutorial (Shady Sands no original, Otradnoye aqui), que encara um problema de saqueadores (os Khans de Garl no clássico, os mafiosos de Denis Denisovich em ATOM) e que recorre ao poder maior para se livrar deles (NCR lá, Krasnoznamenny cá).

Ninguém fica de fora da obsessão referencial do jogo: a lunática seita dos Followers, os vaults, Iguana Bob e até a “múmia” do original possuem contrapartes soviéticas. A influência é evidente até na criação do personagem. Semelhante ao sistema S.P.E.C.I.A.L., o game te faz distribuir pontos entre seis status que são alvo de testes em todo o jogo, cada um importante o suficiente para você querer ao menos alguns pontos neles.

Quer sacrificar Resistência, que raramente é usada para definir opções de diálogo? Certo, mas você vai perder pontos de vida, talvez o atributo mais importante. Quer cortar em inteligência? Menos pontos de habilidade a cada nível, o que pode te prejudicar no longo prazo. O combate, por sua vez, é basicamente o mesmo, com o jogador administrando um número limitado de pontos de ação para atacar ou se locomover.

Hmm, acho que já fiz isso antes..

A quantidade de pontos é definida pelo atributo destreza (mais sobre isso depois) e a chance de acertar cada ataque regrada por quão alto é a habilidade do tipo de arma disparada. Pistolas e submetralhadoras são agrupadas em uma skill, rifles e escopetas em outra. Armas automáticas, de longe as melhores do jogo, e armas de combate corpo a corpo também possuem habilidades próprias.

A cada novo nível, você recebe novos pontos para aprimorar habilidades de combate ou de sobrevivência (persuasão, negociação, arrombamento, etc). Além disso, o jogador ganha também um ponto para distribuir em uma árvore de habilidades que o permite se especializar em determinado tipo ou outro de arma.

Está tudo no manifesto

O que impede, então, ATOM RPG de ser só outra colagem atrasada de um jogo clássico? Pouca coisa, no final das contas, mas isso não proíbe o game de ter seus momentos. Ao lançar meu personagem – um hipster franzino com coração de ouro – na ruína soviética, esperava um previsível mundo mercantilista e cheio de piadinhas sobre como, em condições adversas como aquelas, o homem recorreria obrigatoriamente no capitalismo.

Qual foi a minha surpresa ao descobrir que, em ATOM, várias cidades não só mantêm o estilo de vida comunista, como erguem com orgulho a bandeira soviética. Em uma de minhas jornadas, descobri uma comuna agrícola que prosperava ao dividir atividades entre todos os moradores. Ao comprar itens de qualquer vendedor, o dinheiro ia parar no cofre de uso comum. Ao exigir recompensa maior por uma empreitada, as repercussões da minha ganância pesavam sobre toda a comunidade de sobreviventes. Um cenário único e bem charmoso.

Cenário aqui, aliás, é tudo. Como era feito com maestria nos clássicos, ATOM é daqueles jogos que parece ter pensado em tudo. Nada é só “jogado” no mundo. Em vilarejos, pequenas hortas e algum sistema de água estão sempre à vista para “explicar” como vivem aquelas pessoas. Em bases de bandidos, depósitos e caminhões de cargas – condizentes com o estilo de vida saqueador – estão sempre estacionados às portas. Há esmero em mostrar como aqueles sobreviventes comem, onde dormem, como passam o tempo.

Volte, ó camarada, nós suplicamos

Cada cidade e vilarejo possui sólida base econômica e sociocultural justificando sua existência e a fazendo parecer parte orgânica daquele cenário decadente. O volume de trabalho no texto jogo também impressiona. Não existem NPCs genéricos: nas pouco mais de doze horas que passei no jogo, todo humano com quem interagi possuía foto, nome e diálogos próprios – mesmo fazendeiros, bêbados e loucos.

A queda do muro

Se oferece um mundo interessante (e crível) para a exploração, o texto de ATOM RPG acaba sendo também o calcanhar de Aquiles do jogo. Em comentários de russos no Steam, li que o original em russo é brilhante e repleto de referências inesperadas a filósofos, poetas e cientistas políticos eslavos. Na língua nativa da AtomTeam, o jogo é uma carta de amor à cultura eslava. Como não falo husky, o que tive acesso foi a um reciclado de memes e pastelão beirando a vergonha alheia.

Em tal momento, suspirei fundo ao ver um bartender me relatar os enredos de Mad Max e Fallout:New Vegas como rumores genéricos de boteco. Como cada personagem tem só uma lista de quatro ou cinco perguntas, o volume de personagens únicos se perde em diálogos forçados e desinteressantes, que você pula quase em piloto automático. Claramente, eles miraram em quantidade sobre qualidade aqui.

Nos Fallouts originais, o mesmo problema era reduzido pela presença de NPCs genéricos, que não abriam caixa interativa de diálogo e exibiam apenas número limitado de respostas aos cliques do jogador. Aqui, sobra uma infinidade de personagens “únicos” com muitas opções de diálogo, mas nada a acrescentar, que você vai se sentir obrigado a ir de um em um se for desses (como eu) que gosta de exaustar cada possibilidade. Se os monstruosos Deathclaws são os maiores desafios de Fallout, em ATOM seu pior pesadelo serão salas repletas de NPCs.

Outro problema sempre presente é o mal balanceamento geral do jogo. Encontros aleatórios podem ser exageradamente punitivos, especialmente no início do jogo, e quase toda categoria de arma é inútil se comparada aos rifles automáticos. Isso é problemático sobretudo nos testes de skill, que focam em quatro ou cinco habilidades obrigatórias, fazendo com quase todas as outras pareçam inúteis.

Deveria ter investido alguns pontos a mais em destreza

As frustrações daí são muitas: como emboscadas de grupos de bandidos são frequentes e difíceis demais, o jogador fica basicamente obrigado a investir quase todo ponto que conseguir em speech para evitar batalhas impossíveis. Em uma das missões principais, é exigido um número obsceno de pontos em repair para consertar um gerador. É bom que você tenha imaginado seu personagem como um mecânico falastrão e meio inútil em combate, ou você vai passar um bom tempo sem progredir no game.

Outro problema grave é a falta de opções bacanas como um acelerador de locomoção de mapa: viajar de um ponto a outro do mundo, além de levar vários minutos, é extremamente lento e tedioso. Outro nó é a péssima AI do jogo, com dificuldade em combinar estratégias com companheiros e inimigos que nada fazem além de avançar sobre você. O sistema de “fome”, que te obriga a comer de tempos em tempos, é só uma mecânica inútil que pouco acrescenta ao jogo além da tarefa de acumular carne em lata no inventário (graças a Deus o “realismo” pode ser desligado).

Trabalhadores do mundo, uni-vos

O cenário da URSS pós-apocalíptica acaba sendo o real charme e razão de existir do game, e a equipe desenvolvedora é competente em não desperdiçar o pano de fundo único em maniqueísmos rasos sobre o modelo socialista. A interessantíssima cultura soviética é levada a sério e explorada com curiosa carga de nostalgia, onde até a burocracia socialista – tão estereotipada no ocidente – leva toques positivos.

Andando pelo jogo, esbarrei com encenações de tradicionais fábulas russas, conheci a tensa relação entre eslavos e refugiados tártaros e descobri uma variedade de vodkas que nunca sonhei que existisse. Experiências memoráveis que tornavam a exploração interessante: eu genuinamente queria saber mais daquele universo. E tudo algo que só um mundo rico e orgânico quanto o construído pela AtomTeam consegue executar bem.

ATOM RPG é um game com boas ideias e um esforço louvável em criar um mundo atraente e cheio de personagens únicos. Problemas graves de calibragem – em nível quase que de beta testing até – e uma tradução vergonhosa para o inglês afastam o jogo de ser uma boa opção para não-convertidos na série Fallout. Para quem é familiarizado com o gênero, há muito o que explorar. Só não esqueça de estocar carne em lata.

ATOM RPG está disponível no Steam por 27,99

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