Assassin’s Creed, Notre-Dame e a importância de espaços virtuais

O terceiro Assassin’s Creed marcou o estopim de dois grandes elementos que amargaram a série durante anos até sua eventual pausa que levou ao frescor necessário.

Trouxe o fim da saga de Desmond, mas iniciou a maluquice envolvendo o que galera a chama hoje de Isu (aqueles deuses lá transparentes que tem as peças do éden). Com isso, engatou em títulos todos os anos com poucas inovações, estagnando as mecânicas assim como o ritmo e o prazer que tínhamos em escalar as coisas.

Por mais que Black Flag seja relativamente interessante, cenários históricos que despertam algum interesse eram trocados por jogos que só movimentavam uma narrativa maluca. E a jogabilidade que necessitava ajustes, só recebia mais mecânicas e itens novos que na prática não mudavam muita coisa.

E o chamariz principal, a possibilidade de interagir em grandes momentos da história ocidental, ficou de lado até o lançamento de Origins, que, ao se ambientar no Egito Antigo, colocou uma direção mais voltada a ação com elementos RPG.

Mas, mesmo antes da renovação, tivemos uma aventura que no contexto atual merece uma segunda chance.

Assassin’s Creed Unity está de graça no Uplay até 25 de abril, como uma ação solidária por parte da Ubisoft após o incêndio da catedral de Notre-Dame no último dia 15 de abril.

Ele possui elementos que fazem lembrar do apreço que tinha pela série, ao mesmo tempo que todos os problemas que me fizeram largar aparecem rapidamente.

A premissa por si só já é empolgante, por te colocar em eventos chave que levam ao estopim da revolução francesa. E pelo fato dos principais prédios históricos de Paris já estarem de pé.

É legal ficar pulando de prédio em prédio e até subir até o topo do palácio de versalhes, mas o tratamento que a Notre-dame recebe aqui é bastante interessante. O que vemos no jogo é uma representação fiel do que a catedral era durante o período da revolução, com ela praticamente servindo como um grande depósito.

Na verdade, se formos olhar seu histórico inteiro, Notre-dame sofreu bastante, principalmente por estar atrelada a símbolos que eram contrários a revolução. Além da associação à monarquia (foi palco do coroamento de Henrique VI), era grande símbolo do poder a igreja católica e, ao chegar o pensamento iluminista na comunidade francesa, logo ganhou muitos críticos.

Além do derretimento de sinos e decapitação de estátuas, atos religiosos foram proibidos e a catedral acabou virando um ‘Templo da Razão’ dedicado a ideais revolucionários e iluministas. Também foi palco do ‘Festival do Ser Supremo’, celebração da nova religião estatal criada por Maximilien Robespierre para combater o ‘Culto a Razão’ que rejeitava a ideia de pregar para uma entidade divina.

Quando Napoleão foi coroado imperador, ele restabeleceu o catolicismo na França dando de volta a catedral para igreja.

Em Unity, nós conseguimos navegar por esses acontecimentos e outros eventos que são intrínsecos ao jogo. A versão digital tem ainda aspecto único, já que se trata de um jogo onde algumas liberdades criativas foram tomadas.

As artes que adornam a catedral são levemente diferentes por causa dos direitos autorais, por exemplo. Mas as diferenças maiores acontecem porque estamos falando de um jogo, como relata a designer responsável pela Notre-dame digital, Caroline Miousse.

“Tivemos que mudar o interior um pouco apenas para adicionar diversas camadas de navegação.” Disse Miousse em entrevista no blog da Ubisoft. “Não é o suficiente em simplesmente recriar o monumento. Pessoas precisam se divertir quando estão explorando dentro e fora dele. Estamos fazendo um jogo. Tem que ser divertido..”

E sim, apesar de ainda ser levemente truncado, cada pedaço ali faz sentido em termos de jogabilidade. Se você já jogou algum Assassin’s Creed, vai ser fácil reconhecer alguns elementos clássicos que facilitam a navegação e, por ser um jogo mais recente, as mecânicas de escalar estão mais simplificadas.

Ao mesmo tempo que possui veracidade histórica, faz sentido dentro do universo e linguagem visual do jogo.

Outra mudança importante foi a agulha da catedral. Por mais que Miousse tivesse acesso a planta original, existem poucos registros detalhados da estrutura antes do século 18, então a versão do jogo é baseada na atual, mantendo a filosofia de ser uma parte navegável.

Por isso ela pode ajudar, assim como outros projetos virtuais, a servir como base para a reconstrução da catedral. E isso me faz pensar sobre a importância de espaços digitais, principalmente falando de games.

Sempre existiu essa corrida tecnológica para criar mundos fotorealistas para que fosse possível interagir da maneira que quisermos. Mas isso também cria outra abordagem que é do absurdo, do abstrato, criar projetos arquitetônicos interativos que só seriam possíveis em ambientes virtuais.

É o que parte da comunidade de Minecraft se dedica a fazer, recriações em escala real de diversos espaços conhecidos. Embora não tenham fidelidade visual, fornecem uma oportunidade de explorar Hogwarts, o que é bem irado.

Unity evoca o que a magia da Itália do segundo jogo, quando você tinha um cenário histórico importante recheado de localidade icônicas, no qual poderia saltar, escalar e explorar pela diversão. A série perdeu esse toque, apesar do resgate em Origins, que te coloca para fazer as mesmas coisas só que nas pirâmides. De novo, bem irado.

É a possibilidade de ser uma máquina do tempo, uma aula de história. Ainda é Assassin’s Creed e com isso carrega uma bagagem de diversos problemas de narrativa, jogabilidade, ritmo, micro transações e diversos ícones no mapa, mas no fundo tem seu coração.

E o contexto no qual foi inserido, de servir como apoio para reconstrução da catedral, coloca em uma posição peculiar. Está sendo alvo do inverso de review bombing, algo que não acontece todo dia.

Assassin’s Creed: Unity ressalta o que games podem proporcionar enquanto espaços virtuais e nos fez esquecer do lançamento desastroso recheado de problemas técnicos. Uma história de redenção.