Árida, Bolsonaro e o melancólico futuro da nossa cultura em jogos

Certa vez, o jornalismo me levou para Carrapateiras, distrito de Tauá, no Interior do Ceará. Era uma pauta que envolvia visitar o marco zero do rio Jaguaribe, o que fiz acompanhado por um grupo de “mateiros” – aqueles especialistas em sobrevivência no Sertão, estilo No Limite. Tal hora, um deles me aponta uma planta alta e espinhenta, quase um cacto. “Essa é a coisa mais valiosa que a gente tem, conhece?”. Respondo na lata: “É um mandacaru, né? Aguenta seca braba e dá para assar para alimentar gado. O bicho dá muito mais leite”. O choque foi geral.

Hoje aos 29 anos, posso dizer que cruzei o Brasil de várias formas. Nasci no Rio Grande do Sul, passei a infância no Rio de Janeiro, a adolescência em Brasília e vim parar no Ceará, onde moro há dez anos. Nesse meio-tempo, desaprendi a falar “bergamota”, mudei de sotaque algumas vezes e o rádio foi de tocar música gaúcha para o funk carioca e, na última década, o forró. Nessa jornada de quase cinco mil quilômetros, só uma coisa nunca mudou: videogames.

Do Rio Grande ao Ceará, o que chegava nas lojas era o mesmo. Se você também foi um pivete brasileiro médio dos anos 1990, provavelmente viveu a mesma realidade. Exploramos guerras da Europa medieval com Age of Empires (PC), matamos nazistas em Medal of Honor (PSX), russos em GoldenEye (N64) e árabes em Modern Warfare (PC). A cada geração, fomos incorporando histórias, conflitos e até estereótipos raciais mandados de longe, nada próximos dos nossos.

Meu primeiro contato com a cultura brasileira em jogos veio rolar só há poucos meses, quando conheci Árida: Backland’s Awakening, lançado agora em agosto no Steam. No jogo, você encarna Cícera, uma garota negra e nordestina que ajuda outros habitantes do sertão baiano a sobreviver como podem às duras condições da região. A história se desenrola no final do século XIX, paralelamente ao surgimento do mítico povoado de Canudos.

É importante deixar o óbvio claro: Árida não é um jogo da EA. Feito por uma equipe de oito pessoas, o título está mais para o pontapé inicial de um projeto maior (outros dois capítulos já estão previstos) e leva pouco mais de duas horas para ser concluído. Não existem mecânicas complexas ou novas – é basicamente uma mistura de survival com crafting. Contexto e atmosfera são as palavras-chave aqui. E como Árida sucede em fazer isso funcionar bem.

Foi no jogo que tive meu “masterclass” sobre mandacaru, técnica o bastante para impressionar meus mateiros de Carrapateiras. Depois, apontei que tipos de árvores indicavam a existência próxima de água no subsolo – o que é essencial na hora de cavar cacimbas –, fazendo eles caírem na gargalhada. Em Árida, aprendi de tudo um pouco, desde a fazer umbuzada até como rapadura é doce, mas a sede que ela te provoca é especialmente cruel em áreas sem água.

As primeiras missões, para se ter ideia, são menos aquele tutorial genérico de construir ferramentas e mais sobre aprender a fazer pirão para aproveitar melhor a pouca água e farinha disponíveis. Explorando a Bahia de Cícera, me envergonhei ao perceber como um planeta subaquático infestado de monstros ou uma Rússia tomada pela praga me estranhavam menos como cenários de survival do que a própria região onde moro.

O sertão de Árida é duro, mas seus habitantes nunca são – como o estereótipo costuma pintar – passivos ou conformados com a própria miséria. Explorando com atenção, o jogador revela um quadro de personagens que se viram, se revoltam e tentam de toda forma sair daquela situação. Tudo é mostrado da perspectiva da inocente Cícera, que não entende, por exemplo, o sumiço de um peão após ele se desentender com um fazendeiro local. Nunca mostrado em tela, Canudos é constantemente lembrado em diálogos sonhadores como promessa de vida melhor, dando curiosa conotação à fama messiânica que levaria ao fim do povoado.

Tudo é feito com uma atenção ao detalhe impressionante. Estilo de arte, cenários, itens (principalmente alimentos e bebidas típicas que você pode fazer) e tradições sertanejas, tudo é mostrado com muito charme e pesquisa. São interessantíssimas, por exemplo, as menções singelas a religiões  africanas em meio ao império da fé cristã do sertão. Fiquei impressionado até, me perguntando o quanto de estudo foi necessário para desenvolver tudo isso.

A ligação que tive com Árida desperta uma reflexão maior sobre representatividade e games no Brasil. A ideia de que o brasileiro não quer ou não precisa ver sua cultura retratada em jogos – frequentemente disparada por gente que se opõe ao investimento público para o fomento de uma indústria nacional na área – não é só burra, como mentirosa.

Quem não lembra, por exemplo, da saudosa era dos AdverGames do Brasil? Onde qualquer casa tinha pelo menos um ou dois jogos de jogabilidade duvidosa como Show do Milhão ou No Limite? Quase sempre feitos com grandes restrições orçamentárias/de pessoal, esses jogos vingavam mesmo assim. Não só pelo pano de fundo de um sucesso publicitário e midiático, mas justamente pela sede que qualquer país tem de se ver representado.

É quase inaceitável, por exemplo, que até hoje o Brasil não possua um sequer grande RPG narrativo de produção própria.“Falta de interesse?”, de forma alguma, é só lembrar como os sites de downloads eram abarrotados de produções caseiras de RPG Maker, muitos deles na memória afetiva de muita gente. “Faltam histórias?”, essa não vou nem responder.

Não minta: você curtia ver o logo do SBT em jogos como Pickup Express

Em 2017, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), da Agência Nacional do Cinema (Ancine), financiou 23 projetos de jogos nacionais, com investimento total de R$ 5,3 milhões. Em 2018, foram 22 projetos, somando R$ 5,2 milhões. Os editais foram entre projetos pequenos ou de médio porte, e a distribuição respeitou uma proporcionalidade regional, garantindo recursos para estados de todas as regiões do País.

Você pode conferir a relação dos projetos em pedido de informações que o Site de Jogos fez à Ancine em setembro passado.

Os recursos eram poucos, levando em consideração como desenvolvimento de jogos é um negócio caro e (quase sempre) sem retorno rápido. Vários dos jogos já saíram (o Overloadr fez um compilado interessante dos selecionados à época), mas, mais do que só bancar os projetos pessoais, os editais ajudavam na formação de know how na área e permitiam até que profissionais sonhassem com uma carreira no mundo dos games, algo impensável no País.

O sonho, no entanto, acabou (sempre quis escrever isso). Desde o início de 2019, tomou posse Jair Bolsonaro, que tem travado guerra aberta contra a Ancine, único órgão para fomento do setor no Brasil. Logo no primeiro ano de governo, o presidente cortou 43% da verba da Agência e promoveu verdadeira “dança das cadeiras” entre a direção do órgão.

Cultura não tem sido exatamente a prioridade do atual governo

A ideia era atacar o cinema, que rejeita o controle ideológico de projetos financiados pelo Estado, mas acabou abortando junto projeto que prometia saltar investimento em jogos para R$ 45,2 milhões. A discussão sobre como esperamos que uma indústria “surja do nada” e ignoramos exemplos de fora é longa e não cabe nesta resenha, mas é importante destacar alguns pontos.

Muito influenciada pela crescente influência neoliberal no pensamento econômico do País, a população embarcou em discursos simplistas que só enxergam no fomento público chavões como o de “mamar nas tetas do governo”. Ela ignora, por exemplo, que recursos de fundos especiais existem para absolutamente todos os outros setores da economia – até fundo para plantar caju existe – e que eles são alimentados pelo próprio consumo na área.

Também são ignoradas experiências exitosas de fomento de outros países, como o Canadá, que virou uma espécie de “paraíso” para desenvolvedores por conta de incentivos do País, ou até mesmo a conservadora Polônia, que ajudou a financiar companhias como a CD Projekt Red (de The Witcher). Hoje, a empresa movimenta 521,2 milhões de zlotys poloneses (algo em torno de US$ 125 milhões e emprega mais de mil pessoas. Dois textos muito bons do UOL tratam mais disso, desde a importância das agências de fomento à implementação de medidas econômicas na área.

No final das contas, o presidente patriota e gamer, que grava vídeos com joysticks e telefona para streamers, acabou condenando a indústria nacional a seguir tateando, e os desenvolvedores a seguir procurando alternativas no Exterior. Uma pena: assim como a Cícera de Árida, saindo aos Sertões na busca da condenada Canudos, o futuro parecia promissor.

ARIDA: Backland’s Awakening está disponível no Steam por R$ 8,99