A volta da ação estilosa e louca em Devil May Cry V

Devil May Cry é uma das franquias mais relevantes da história dos jogos por ter sido fundamental na criação do sub-gênero “stylish action”. Fundindo o hack n’ slash com elementos de jogo de luta para criar combos, fazendo com que o jogador mais dedicado sinta-se no controle de um combatente poderoso e estiloso.

A aventura de Dante tornou-se importante referência no gênero e suas raízes são encontradas até hoje em jogos como Bayonetta, God Of War, Metal Gear Rising e NieR Automata. Mesmo assim, Dante ficou de molho por uns 11 anos até que a Capcom desse a Hideaki Itsuno, mente por trás de DMC3 e 4, a chance de continuar a história do caçador demônios em sua aguardada sequência.

DMC V se aproveita do mesmo motor gráfico utilizado em Resident Evil 7 e no remake de Resident Evil 2, apresentando um visual mais realista e menos caricato se comparado com outros títulos da série. A mudança veio a calhar, mesmo com aspectos mais próximos à nossa realidade, o jogo ainda é bobo e a personalidade cativante dos personagens está mais aparente do que nunca. Isso porque ver modelos digitais realistas soltarem piadas bobas e um ser humano surfar em um braço mecânico é ridículo nem que só pelo contraste.

Isto não quer dizer que a história seja apenas uma plataforma de piadas. O enredo é muito bem tratado e, diferente dos outros jogos, faz muito uso do mistério para brincar com o jogador. As situações não são resolvidas imediatamente, as indagações permanecem durante quase toda a jornada, pouco a pouco sendo desvendadas e solucionadas, dando tempo para que o jogador absorva o que está sendo mostrado e lide com as revelações.

A introdução de V como terceiro protagonista vira um exemplo claro que carrega esta faceta da história. Ele age como um estranho no ninho que, ao lado de Nero e Dante, precisa derrotar uma nova ameaça demoníaca. O prólogo, não acidentalmente, começa a ser contado já durante uma investida do trio ao novo inimigo, com os eventos anteriores sendo destrinchados posteriormente.

Já nesse início, somos rapidamente introduzidos aos personagens importantes da trama além do três protagonistas. Figurinhas carimbadas como Trish e Lady aparecem, até Morrisson, que é do anime do Devil May Cry, dá as caras. A novidade nesse panteão fica com a Nico, neta da artesã que fez as armas do Dante,  responsável por dirigir o camburão da empresa de caça aos demônios e de criar os Devil Breakers de Nero, braços robóticos com particularidades especiais.

Falando em Nero, seus ataques são praticamentes os mesmos, incluindo o sistema Exceed, que faz uso do acelerador de moto que existe no cabo da espada para fortalecer os combos quando você aperta um botão em um frame específico. Os Devil Breakers, inclusive, são a maior variação de jogabilidade de Nero em relação a Devil May Cry 4, adicionando uma camada interessante de complexidade.

Cada braço possui características únicas que possuem um ataque normal e um carregado. A variedade é diversa, podendo ser mais ofensivos ou defensivos  , com alguns capazes de alternar até o campo de batalha de forma específica. Há um que causa uma onda de choque, um outro que ativa um modo frenesi nas armas de Nero que o deixa sem conseguir controlá-las direito, e até um que vira um foguete e você pode sair voando montado nele.

Sua complexidade se dá no fato de serem quebráveis durante a batalha e não é possível escolher qual pode utilizar. Você escolhe um conjunto antes de começar cada missão e caso quebre algum, existem alguns espalhados pelo cenário. Trazendo uma camada de imprevisibilidade, deixando nas mãos do jogador decidir qual a melhor tática para aquele momento.

Dante também funciona de forma análoga aos anteriores, principalmente 3 e 4. As quatro posturas de batalha estão presentes e o jogador tem livre acesso para alterar as armas de fogo e de combate corporal. É em entender como cada postura e arma afeta o jogo que mora a complexidade e a vastidão de possibilidades que possui. Cada postura trás um ataque padrão especial único com focos em locomoção, armas de fogo, combate corporal e defesa. Há também a transformação Sparda, que o deixa mais rápido, mais forte e recuperando vida. É essencial o jogador entender o uso da transformação, que é ativada utilizando as barras de poder demoníaco, para aproveitar seu ataque mais fugaz ou sua capacidade de curar.

Ao fim do jogo, Dante possui quatro armas de fogo e quatro armas brancas no arsenal. Com tantas opções à disposição, o jogador incauto pode acabar perdido tentando encontrar um meio-termo em tudo ou acabar ficando preso a apenas um tipo de combate. Ele requer tempo e dedicação para que se atinja uma fluidez necessária para lidar com todas as possibilidades de combos que residem nele. Por ser tão profundo, torna-se o personagem mais difícil de jogar. Todavia, como em DMC 4, é o mais delicioso de controlar quando dominado. E, definitivamente, é o mais divertido de testar combos e combinações. A dica é não se prender a um estilo específico de combate, se soltar e circular por tudo é o que vale. Dante é um parque de diversões esperando para ser explorado. Inclusive, se prepare pra vê-lo dançando capoeira com a Balrog equipada.

V é o estranho no ninho não apenas narrativamente, mas também em jogabilidade. Diferente dos heróis anteriores, o tatuado faz uso de três familiares para combater os demônios e se mantém a distância. Seus animais são Grifo, um pássaro falante, Sombra, uma pantera negra e Pesadelo, um amontoado de fluido negro. Ao jogador que conhece os eventos da série, vale a pena notar o capricho com o qual tudo foi construído, nunca apelando para a nostalgia barata. No combate, Grifo é o responsável pelos ataques a distância, conjurando trovões nos adversários. Sombra é responsável pelo combate corpo-a-corpo, modificando o seu corpo em diversas formas para atingir os monstros. Pesadelo, por fim, é utilizado quando as barras de poder demoníaco do personagem estão cheias, e entra no campo de batalha atuando sozinho, causando caos e destruição. Os seus familiares batem em seus inimigos até que fiquem cambaleantes, que é o sinal para V entrar no combate de fato, os eliminando com sua bengala.

Explorando um combate mais de gerenciamento dos seus recursos, V é uma bem vinda variação, apesar de, por vezes, ser muito simples ou confuso, já que nem sempre parece que você tem o controle perfeito de seus familiares. Em dificuldades mais elevadas, é necessário um posicionamento e uma precisão mais exata de seus comandos, já que seus familiares podem sucumbir e, para reanimá-los, V precisa ficar próximo de seus corpos. Porém, nas dificuldades iniciais dificilmente encontrará muitas situações assim e pode terminar uma missão apertando os botões sem pensar muito, o que é uma ótima pausa para um jogo tão técnico.

A variedade não é encontrada só nas mecânicas mas também nos inimigos que enfrenta cada qual com particularidades que forçam o jogador a usar de diferentes formas as ferramentas disponíveis. Jogadores mais experientes podem acabar trucidando todos com seus combos avançados em dificuldades menores, já os menos experientes vão encarar uma curva de aprendizado rígida, porém justa. O jogo brilha mesmo, porém, nas lutas contra os chefes. Cada um com sequências de movimentos próprias e eventos que agradam os olhos, é absurdamente divertido encarar as diferentes ideias de batalha que a Itsuno e sua equipe propõem, principalmente as da reta final de jogo, que presenteiam o fã da série com segmentos brilhantes. Pessoalmente, eu tive que jogar a reta final do jogo em pé de tão maluco que eu estava tanto com os combates quanto com o andamento da história. Espero que você sinta o mesmo. Ou no mínimo, caia na risada com o Grifo discutindo com o Nidhogg.

Colocando uma trilha sonora estupenda nesta receita de bolo, DMC V é um dos jogos mais deliciosos de aprender e dominar disponíveis na indústria. Com a diminuição de aventuras puramente de ação, como o próprio Itsuno já comentou em algumas de suas entrevistas, a nova aventura de Dante vem em boa hora. A quantidade de variações não só de um personagem, mas dos três, apresentam um leque diversificado de opções para tentar alcançar o ranking SSS mais glamoroso que você já criou na vida. Não são poucas as vezes que um sentimento de euforia e prazer é evocado ao ver as letrinhas do ranking subindo ao lado enquanto seu boneco faz malabarismos insanos. Algo que só essa série consegue criar. Além da jogabilidade,as cutscenes são fantásticas em todos os quesitos, como estética, direção e insanidade, esbanjando estilo a cada momento.

Brincar com o ridículo sempre foi o grande mote de Devil May Cry. Muitos nunca entenderam isso e não gostam da franquia, ou não entendem muito bem a recepção que o “reboot” possui. Muitos pensam apenas na jogabilidade, mas não é só isto. É na receita como um todo: Os personagens, a história, o estilo, os clichês. Todos estes pontos tornam-se em uma obra única, que ressurgiu mais forte do que nunca após estes 11 anos, concebendo sua entrada mais afiada da história, com momentos grandiosos e jogabilidade saborosa, e que possui o potencial de enlouquecer os fãs da franquia com o desenrolar dos acontecimentos, além de encorajar os novatos a adentrar de vez neste mundo de insanidade.

DMC V é uma carta de amor a uma franquia que estava repleta de corações carentes. É impossível não se apaixonar novamente.

Devil May Cry V está disponível para PC, Xbox One e PS4.

A cópia para análise foi cedida pela Capcom.