A Montanha de Celeste

Nos últimos dias estive pensando bastante sobre Celeste. Com uma trilha sonora marcante,mecânicas intensas e um excelente design de fases, já era de se esperar algum impacto, mas o que mais me chamou atenção foi a montanha que dá nome ao jogo.

Existem certos símbolos que são constantes em mídias no geral. Dragões representam inimigos, ouro representa uma recompensa, desejo ou até mesmo ganância. Montanhas representam uma jornada ou melhor dizendo, o desafio dela. Algo a ser escalado, que vai esgotar seus recursos e fazer você duvidar de suas capacidades e das escolhas que te levaram até ali.

Signos como esse sempre foram constantes em jogos. Alguns em formas mais primitivas e intuitivas, por já estarem ligados ao inconsciente coletivo. Corações representam vida, placas representam lugares onde você pode fazer um fast-travel. Outros símbolos passaram a receber significado por causa de jogos, como um cogumelo verde que representa uma nova vida.

Mas o que acontece quando um jogo ressignifica fortemente o próprio símbolo?

Acredito que esse seja o caso em Celeste, onde a montanha vai além de representar apenas a jornada. Nesse caso a sua forma se torna até mesmo pessoal. Afinal, o desafio da protagonista Madeline é um desafio interno.

Em momento algum você recebe qualquer tipo de motivação para subir a montanha, pelo menos não nada palpável, ou algo que possa ser transmitido em uma recompensa material ao jogador. Você não adquire experiência, você não libera itens ou cosméticos para customizar a protagonista.

A montanha passa a ter então um duplo significado: é a missão e a recompensa, desafia ao mesmo tempo em que te ensina. Para Madeline, a jornada nem sempre faz sentido, e a forma como isso é traduzido para o jogador é um sinal de que o jogo foi feito por alguém que entendia a mensagem a ser transmitida.

O jogo é desafiante. Em vários momentos me peguei duvidando de mim mesmo. Mas a cada tela conquistada, me via aprendendo mais e mais sobre aquele universo e, de certa forma, sobre minhas capacidades. Processo que a personagem principal também deveria passar.

E errar, múltiplas vezes seguidas, é parte do processo. Mas a montanha não têm interesse em te punir, apenas em te ensinar. Em Celeste o seu contador de mortes não é motivo de vergonha. É uma prova de sua resiliência.

Afinal, esse é um jogo sobre problemas psicológicos, sobre como lidar com eles. Por mais que eu não sofra de síndrome de pânico, eu já passei por situações em que sentia meu corpo pesar por depressão ou ansiedade, e a solução para mim sempre era fazer algo. Qualquer coisa, desde que fizesse. O simples ato de levantar fazia com que um peso fosse retirado de mim.

Uma representação disso é o Dash aéreo, a primeira habilidade que você recebe. Logo no início da sua jornada, no momento em que você decide fazer algo você é recompensado com a habilidade que irá te carregar até o fim do jogo.

Celeste constrói uma bela narrativa, e por mais clichê que seja sua conclusão, não consegui deixar de me emocionar com aquilo que havia passado. A forma como a mensagem do joga dialoga com suas mecânicas e o design de sua montanha é certamente o ponto mais alto dessa experiência. Seus sonhos tomam forma, e podem servir como fonte de aprendizado ou se transformar em pesadelos que irão te fazer sofrer, uma retração das nossas próprias falhas e a forma como elas nos assombram. A temática de espelhos é outra constante no jogo, indicado seu reflexo como parte da sua essência que você precisa lidar, ou apenas indicando que ali se inicia um momento de reflexão.

E após aprender tudo que a montanha tinha pra me ensinar penso no que seria aquela recompensa. A visão do topo e um sentimento de vitória. Algo que somente essa gigantesca pilha de terra semiótica poderia me proporcionar.

Mas o topo da montanha não significa o fim dessa jornada. E os níveis opcionais de Celeste que me faziam revisitar a montanha e me proporcionaram desafios maiores e lições mais duras. Tudo que acreditei já ter aprendido era distorcido e jogado contra mim de formas inesperadas, me deixando sempre na ponta dos pés e  fazendo pensar “É isso, dessa vez não passo”. E então salto, e me sinto leve novamente.

Ainda tenho bastante coisa para fazer em Celeste. E sei que essa montanha não esconde nenhuma pilha de ouro, nenhuma espada mágica ou princesa a ser salva. E está tudo bem. Celeste por si só já é recompensa suficiente.