A calmaria de ABZÛ

Tenho certa inveja de quem vive um estilo de vida onde meditar é uma atividade frequente. Quando tentei, não deu muito certo, e preciso criar uma força de vontade que me faça organizar minha vida para que isso funcione da maneira correta.

Das pessoas com quem conversei e do pouco que li, a meditação ajudaria bastante com meu problema de foco. Além de todos os outros benefícios associados ao ato, todo mundo que faz parece mais satisfeito com a vida.

Alguém tinha me dito que ASMR poderia ser um método alternativo, principalmente na hora de dormir. Só dificultou o meu sono: fiquei prestando atenção no barulho de alta qualidade de plástico se mexendo e é bem assustador, na real.

Como minhas tentativas resultaram em frustração, acabei perdendo o interesse, até que Abzû surgiu. De uma forma natural, ele despertou essa calmaria que estava precisando. Não se tornou um hábito – já adianto que o final dessa história não é a minha transformação em uma pessoa tranquila da vida – mas sobre o que esse game faz.

Matt Navas, diretor do jogo, também esteve envolvido na direção de arte de Flower e Journey. E é possível perceber as semelhanças entre este último com clareza, mas não são demérito para a aventura debaixo d’água.

Desde a navegação lenta, partes do personagem brilharem quando quer andar mais rápido (Journey era o cachecol aqui é o pé de pato), a atmosfera contemplativa, murais contendo histórias de civilizações primitivas, momentos mágicos de catarse, a diferença aqui é como o jogo aproveita para utilizar tais elementos como base para criar algo próprio.

Abzû é sobre a natureza, a beleza do oceano. Você vai navegando de bioma em bioma observando como cada espécie se comporta, e pode destravar mais bichos ao longo da jornada. Pode também subir em certos animais, como tubarões, e deixar que tomem conta da navegação, mas essas são as suas únicas ações diretas com eles.

Boa parte da experiência é passiva, de uma forma na qual sendo observador você se sente parte daquele cardume unido dando uma passeada tranquila pelo cenário. 

É bastante gostoso ir nadando entre os peixes e, apesar de possuir grandes desafios apenas na parte final, ele muda de ritmo introduzindo diferentes localidades. Você basicamente vai destravando pequenos biomas e pode destravar espécies em específico ao passar por cima de pequenos círculos de corais.

E fica ao cargo do jogador se quer continuar seguindo até chegar ao fim ou quer ficar curtindo. Não existe uma urgência, nada piscando para que precise completar um objetivo. Tanto que quando chega em certa áreas, pode avistar uma estátua de pedra em formato de tubarão que serve para meditar e isso consiste em um screensaver animado.

A câmera acompanha um peixe e vai seguindo ele para sempre, se quiser pode ir mudando e movimentar a câmera para pegar novos ângulos, tirar uma fotinha massa. Ou pode simplesmente deixar rolando e acompanhar para onde vão.

Não dá para afirmar com precisão se Abzû quer induzir o mesmo que uma sessão de meditação, mas boa parte da experiência traz sim uma sensação de leveza, calmaria. O jogo se passar dentro d’água ajuda bastante, existe uma dualidade interessante sobre o oceano, ao mesmo tempo que é aterrorizante pelo o que ainda não conhecemos, traz um relaxamento e senso de paz.

O jogo inteiro é tranquilo, sem parcimônia, você que dita o seu tempo. A cada novo bioma é uma surpresa: como os peixes se comportam, dá pra ver um tubarão se alimentando de boa, e quando introduz a parte mais desconhecida e sombria do oceano, mantém a coesão. É uma experiência que sabe muito bem o seu próprio ritmo, onde deve inserir novos elementos e iterar no que foi mostrado anteriormente.

A maneira como utiliza cores é um ótimo exemplo, pois usa tons de vermelho e laranja de uma maneira impactante que não destoa daquele universo aquático. E os animais apresentados respeitam essa mudança nas cores, sem confundir visualmente. Também ajuda que o visual de Abzû é simples, o personagem principal, o cenário, peixes e animais marinhos apelam nas cores fortes e possuem formas diretas, sem muito sombreamento.

Ele consegue traduzir aquela sensação de estar boiando de barriga pra cima em uma piscina ou relaxando nas ondas do mar. Estar nadando num universo colorido com diversos inserir espécie digitais é ótimo, recomendo para todo mundo e por tabela cria uma sensação de relaxamento que nada vai te atingir naquele momento. Pode gerar outras sensações obviamente, talvez tenha ressoado comigo dessa maneira pelo o que estou vivendo no momento.

Tô precisando dar uma aliviada nos ânimos e evitar pensar em diversas coisas ao mesmo tempo.

Ao terminar o jogo, a opção de meditação fica disponível na tela principal e você pode ficar contemplando cardumes dançando e lulas nadando na hora que quiser. Pode usar como descanso de tela tal qual uma grande varejo faz com TVs ou pode aproveitar para descobrir espécies novas de vida marinha.

De qualquer maneira, é uma experiência que não estava preparado para ser relaxante e fico feliz que tenha ocorrido.

ABZÛ está disponível para Microsoft Windows, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch